Moses Finley e a Economia Antiga

Já coloquei online o material a ser utilizado para o seminário de Introdução à História Antiga, sobre Moses Finley (dia 07 de Novembro). Estão lá os capítulos 1, 5 e 6 de A Economia Antiga (em espanhol). Também coloquei textos de apoio: um artigo influente do próprio Finley sobre a idéia de Cidade Antiga, um capítulo historiográfico do livro do Michel Austin e Pierre Vidal-Naquet, Economia e Sociedade na Grécia Antiga (aqui) e, finalmente, o link para um artigo do Miguel Palmeira sobre a obra do Finley.

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Epigrafia Romana em Roma

A EScola BRitânica de Roma está anunciando um curso de verão sobre epigrafia romana. O curso envolverá aulas teóricas, visitas a museus e sites (inclusive Ostia), e o desenvolvimento de um projeto individual. A professora é Abigail Graham, de Warwick, e a oportunidade é fantástica. Maiores detalhes aqui.

FIlósofos e antiquários

Eu me formei lendo trabalhos de autores  e ouvindo professores tratando todo trabalho sem valor como “mero antiquarianismo”.

Esta semana no nosso curso nós discutimos a formação da História Antiga como uma ciência, como um campo de saber/corpo de conhecimentos sobre um passado específico, e nesse processo discutimos o papel dos antiquários. Os antiquários eram aqueles sujeitos que, especialmente entre os séculos XV e XVIII, se dedicaram a coletar, estudar, analisar e publicar todo tipo de objeto ou informação sobre a antiquigade greco-romana. A religião romana, as instituições políticas de uma cidade grega, moedas de um determinado imperador, etc, tudo era objeto da paixão e fervor dos antiquários.  Meu argumento, na aula, foi que eles cumpriram um papel essencial no surgimento da História Antiga: mais especificamente, a idéia que eu defendi é que no caso da História Antiga a disciplina não foi o produto de um projeto político ou ideológico definido, mas sim um campo de conhecimento que nasceu de um conjunto de textos e artefatos.

Isso não quer dizer, é claro, que não existisse de um “projeto” ou “programa” por trás dos interesses destes autores: o que eu quero dizer é que, enquanto no caso da História Medieval e Moderna e da História Eclesiástica, não houve uma instituição promovendo ou definindo o que deveriam ser estes estudos (no caso destes, haviam os Estados Nacionais e a Igreja). Existiam associações, academias, sociedades (os dilettanti ingleses, por exemplo), mas estes não tinham o caráter articulado e programático dos outros. Os antiquários desenvolveram um conjunto de métodos para identificar a informação (ou o artefato) legítimo, princípios para analisar o passado através de fontes, e (uma coisa muito forte entre os antiquistas) o ideal de que deve-se recolher todas as fontes existentes (sim, existe um certo fetichismo entre os historiadores da antiguidade).

Na querela intelectual entre os “antigos” e os “modernos”, os antiquários foram decididamente antigos, no debate a respeito do Pirronismo, foram eles que forneceram a melhor resposta aos críticos da História Antiga.  O que os antiquários não conheciam fazer era responder às grandes questões políticas e filosóficas colocadas pelo seu próprio tempo – na verdade, eles não estavam preocupados com isso. Isso é algo que caberia aos filósofos do XVIII, como Montesquieu, que usaram o passado greco-romano para responder aos problemas contemporâneos – nunca, no entanto, com a mesma precisão e erudição dos antiquários. Os antiquários não inventaram a História Antiga, mas sem eles ela não teria existido.

Fontes para o estudo da História Antiga (em espanhol)

O Professor Francisco Marshall alerta, através da lista de História Antiga, que foi criado um site dedicado à História da Grécia e de Roma, ligado ao Instituto de História da Pontifícia Católica de Valparaíso. O site (aqui) parece bem legal, e tem muitas fontes traduzidas. Vale a pena conferir.

O que é a história antiga?

Essa foi a questão debatida na primeira aula do curso de Introdução, nesta segunda-feira passada. Uma coisa que me chama a atenção, sempre, é o fato de que a História Antiga é normalmente tomada como um período cronológico sem maiores problemas, quase natural. Isso obviamente não é verdade, e os historiadores estão cada vez mais atentos a isso. Esse foi o tema do recente colóquio do Laboratório de Estudos sobre o Império Romano (maiores informações, programa e links para os vídeos das conferências aqui).O melhor texto que eu conheço sobre o assunto é o do Norberto Guarinello, da USP, publicado na revista Politeia. O que o Norberto mostra são basicamente duas coisas: que a idéia de História Antiga é uma abstração e, enquanto tal não tem nada de natural; e que a História Antiga é uma abstração útil, uma ‘forma’ ou enquadramento que nos ajuda a dar sentido a um passado extremamente diverso e extenso geografica e cronologicamente.

Outro texto que foi muito útil foi uma palestra do Fergus Millar, “Tomando a Medida do Mundo Antigo” (aqui). A palestra foi proferida em um encontro da Classical Association em 1993, e é voltada para especialistas dos estudos clássicos. Mas Millar levanta uma série de questões de interesse mais geral, mostrando que o “mundo antigo” é ao mesmo tempo mais extenso e mais rico do que normalmente pensamos. Millar é a  favor de incorporarmos outras civilizações que não só a greco-romana em nossas narrativas e preocupações – e até mesmo em nossos programas de ensino. Ele fala mais da tradição judaico-cristã, mas a lógica dele pode ser extendida para além disso. Ele também chama a atenção para o impacto de disciplinas como a epigrafia e a papirologia sobre a definição dos limites do que o historiador da antiguidade pode estudar.

Introdução aos Estudos de História Antiga e Medieval

Este semestre sou responsável, com minha colega medievalista Rossana Pinheiro, por uma disciplina nova na UNIFESP, Introdução aos Estudos de História Antiga e Medieval. O objetivo da disciplina é fazer uma introdução a estas duas áreas, discutindo as fontes, metodologias, problemas, e especialmente os debates historiográficos formativos. A Rossana e eu montamos um curso em dois módulos, e eu sou responsável pelo módulo de Antiga. Para quem quiser saber o que vai acontecer, o cronograma do módulo está aqui (basta clicar no link).

Nós também montamos um ciclo de palestras, com professores e pesquisadores de diferentes universidades paulistas, e o programa se encontra aqui.

Grécia Arcaica

Comecei a ler para preparar meu curso de graduação, História Antiga. Eu ainda não fechei o programa, ma já decidi que meu ponto de partida será a Grécia arcaica mesmo – é aí que as coisas que me interessam começam a acontecer, e o período é legal porque se eu quiser eu posso cortar qualquer referência a Micenas ou Creta, mas se eu tiver tempo eu sempre posso incorporar estas coisas. Estou lendo dois livros (que vão render, porque no meio tempo tenho outras coisas para fazer): Grécia Primitiva: Idade do Bronze e Idade Arcaica, do Moses Finley, e Greece in the Making, 1200-479 BC, do Robin Osborne.

Quando eu comprei o livro do Osborne, anos atrás, eu achava que esse seria O livro: ele conhece bem o período e incorpora um monte de dado arqueológico, além de vários avanços na historiografia. Já do livro do Finley, que eu li na graduação, eu não esperava muito: a edição original já tem 40 anos (a tradução brasileira é de uma reedição de 1980). Curiosamente, se o livro do Finley é certamente muito ultrapassado, ele tem a virtude de ser uma síntese muito inteligente. Osborne se recusa a generalizar, e com isso discute milhares de casinhos ínfimos, o que torna difícil para o não especialista formar uma visão do todo. Eu tenho outros livros na minha lista de espera, mas assim que acabar estes eu comento mais aqui.