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Géza Alföldy (1935-2011)

Faleceu no último domingo, dia 6 de Novembro, o epigrafista e historiador húngaro Géza Alföldy, professor emérito na Universidade de Heidelberg. Alföldy foi um dos maiores estudiosos da epigrafia e da História Romana no século XX, tendo escrito obras influentes como sua História Social de Roma, publicada em português pela editora Presença de Portugal, e editado vários columes do Corpus Inscriptionum Latinarum (CIL). Alföldy foi, na opinião de todos os que o conheceram um gigante intelectual, que gostava de reunir estudantes ao seu redor para discutir documentos de forma exaustiva, mostrando todas as dificuldades na sua interpretação, todas as possibilidades e tudo o que eles ofereciam.

Alföldy faleceu de um ataque cardíaco durante uma visita à acrópole, em Atenas: uma maneira mais do que adequada para um estudioso tão importante.

Para quem quiser saber mais sobre ele, a página da Wikipedia (em inglês) é muito boa. O jornal espanhol El País publicou uma boa matéria sobre ele. O currículo dele está disponível na página do departamento de História Antiga de Heidelberg, assim como uma lista de suas publicações.

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Epigrafia Romana em Roma

A EScola BRitânica de Roma está anunciando um curso de verão sobre epigrafia romana. O curso envolverá aulas teóricas, visitas a museus e sites (inclusive Ostia), e o desenvolvimento de um projeto individual. A professora é Abigail Graham, de Warwick, e a oportunidade é fantástica. Maiores detalhes aqui.

Apagando inscrições no mundo grego

Lá no Current Epigraphy tem um breve relatório da palestra que Graham Oliver deu no Institute of Classical Studies de Londres no dia 14 de Janeiro, sobre a destruição de inscrições na Grécia Antiga. Não há necessidade de repetir o argumento do Oliver aqui, mas gostaria de chamar a atenção para o fato de que isso era comum no mundo antigo. De fato, esse é um problema para o qual epigrafistas começaram a prestar mais atenção recentemente: o re-uso de monumentos, suportes materiais para novas inscrições. Essa prática é uma fonte de informação crucial para interessados na história política e da cultura material no mundo antigo. Meu exemplo preferido, no entanto, não é epigráfico, mas literário: em sua oração 31, Dião Crisóstomo (final do século I d.C.) ataca os habitantes de Rodes por apagarem as inscrições que identificavam estátuas honoríficas expostas na cidade, para homenagearem outras pessoas. O resultado, como Dião nos informa, incluiu estátuas de mulheres identificadas como homens e estátuas de atletas identificadas como velhos.  Para quem tem interesse, a oração de Dião pode ser lida traduzida para o inglês no excelente Lacus Curtius. Para quem quiser mais, o discurso 37, também atribuído a Dião mas na verdade escrito por Favorino (seu aluno) também trata do mesmo tema.

Eu tratei do re-uso de bases de estátuas na Itália da Antiguidade Tardia em uma conferência sobre epigrafia tardoantiga. Esse texto ainda vai ser publicado, mas eu achei os textos listados abaixo muito úteis:

* H. Blanck, Wiederverwendung alter Statuen als Ehrendenkmäler bei Griechen und Römern (Rome, 1969); C. Löhr, “Die Statuenbasen im Amphiareon von Oropos”, Athenische Mitteilungen 108 (1993) 183-212; A. Jacquemin and D. Laroche, “Notes sur trois pilliers delphiques”, Bulletin de Correspondence Hellenique 106 (1982), 191-218;  J. Shear, “Reusing statues, rewriting inscriptions and bestowing honours in Roman Athens”, in Z. Newby and R. Leader-Newby, Art and Inscriptions in the Ancient World (Cambridge, 2007), 220-46. Sobre o discurso de Dião e os problemas que ele levanta para a epigrafia, C. Roueché, “Written display in the Late Antique and Byzantine City”, in E. Jeffreys (ed.), Proceedings of the 21st International Congress of Byzantine Studies, Hampshire, 2006, p. 243.

Inscrições honoríficas e votivas

O título deste post deveria ser “como traduzir o dativo em dedicações de monumentos honoríficos latinos”, mas esse blog já tem poucos leitores, então é melhor maneirar.

Vinte e cinco anos atrás, Simon Price publicou um artigo fundamental, “Gods and emperors: the Greek language of the imperial cult”, Journal of Hellenic Studies 104 (1984), 79-95. Nesse artigo, Price mostrou que dedicações, seja de altares ou de estátuas, quando feitas para imperadores, eram feitas na verdade em seu nome, e não para eles mesmos. Ou seja, imperadores eram considerados divinos, mas não deuses.  Price não tratou de inscrições latinas ou do ocidente romano, e nesse momento estou tentando encontrar alguém que tenha tratado desse assunto.

Uma base de estátua dedicada a Constantino depois de morto, entre 337 e 340 AD em Roma, é um bom exemplo desse problema: “Divo ac venerabili/ principi Constantino/ patri principum/ maximorum/ Fl(avius) Creper[e]ius Madalianus v(ir) c(larissimus)/ praef(ectus) ann(onae) cum iure glad(ii).” A estátua foi dedicada por Flávio Crepereio Madaliano, prefeito da anona (o sistema de distribuição de alimentos na Roma do final do império). A dedicatória deveria ser traduzida assim: “Para o divino e venerável príncipe Constantino, pai dos máximos príncipes (…)” A dificuldade está em definir o peso de Para, ou seja, do dativo divo (de divus). Essa é uma oferta feita para o imperador, ou em sua honra?  A distinção é sutil, mas o que está em jogo é a concepção que temos tanto do imperador, uma figura quase divinizada, quanto da prática de dedicar estátuas. Uma sugestão que me foi feita pelo Bert Smith me parece um bom caminho para estudar esse problema: fazer uma análise de todos os verbos usados nestas inscrições, e ver a força que normalmente é atribuída ao ato de dedicar uma estátua: “consagrar” é mais forte do que “colocar”. Basta saber se alguém já estudou isso. Se sim, ótimo, se não, vale um artiguinho.

Conferência: A(s) Cultura(s) Epigráfica(s) na Antiguidade Tardia

Nos últimos meses tenho trabalhado, junto com o Christian Witschel, na organização de um workshop que será realizado aqui em Heidelberg. O objetivo do encontro é reunir especialistas de diversos países (Hungria, Alemanha, Israel, Itália, Inglaterra e Brasil) para discutir o que chamamos de “cultura epigráfica” tardo-antiga. Ou seja, tomar a epigrafia como um aspecto da cultura material romana, e analisá-la como parte dessa cultura – e não, como epigrafistas faziam antigamente, restringindo-se a textos. Queremos, assim, recolocar as inscrições em seus contextos históricos (sociais, culturais, geográficos, religiosos, físicos, etc). O encontro acontecerá em Heidelberg, em 26 e 27 de Junho, e para encontrar mais detalhes (inclusive o programa) basta conferir abaixo.

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Lex de imperio vespasiani

Durante minha última visita a Roma, vi que o fragmento de bronze contendo a assim chamada Lex de imperio Vespasiani estava sendo restaurado. Isso é uma pena, porque na mesma época estava rolando a exposição dedicada a Vespasiano, da qual falei abaixo. Para quem é interessado em imperadores romanos, especialmente depois de Nero, esse é um objeto imperdível.

Esse fragmento de bronze foi encontrado em Roma no século XIV, por ninguém menos do que Cola de Rienzo, o romano que se insurgiu contra o controle dos papas e da aristocracia corrupta da cidade e se declarou tribuno da plebe até ser primeiro exilado e depois executado. O texto inscrito nesta tábua recorda a segunda parte de um decreto feito pelo Senatus populusque Romanus (o senado e o povo de Roma), conferindo alguns poderes ao novo imperador Vespasiano, e é datado de Dezembro de 69. O texto foi usado por Cola di Rienzo como um argumento para dizer que na antiguidade o povo de Roma era responsável pela escolha do imperador, e o poder deste vinha daquele – uma teoria interessante, porém errada.Lex de imperio Vespasiani

Existe um grande debate sobre este documento, infelizmente nada em português. Existe um verbete na wikipedia alemã, mas o artigo razoavelmente recente mais importante sobre o assunto ainda é o de Peter Brunt, no Journal of Roman Studies de 1977. Brunt argumentou que a Lex de imperio era um decreto do Senato (senatus consultum): estes eram normalmente uma resposta do senado a uma questão colocada por um magistrado, por exemplo o imperador. Inicialmente tinham valor apenas indicativo, mas normalmente eram considerados geradores de efeito jurídico. Segundo Brunt, mostrava que apesar de deterem enormes poderes os imperadores do século I d.C. ainda se esforçavam por manter a aparência de que governavam com o consenso do mundo político. O texto foi publicado em CIL VI, 930. O texto original pode ser encontrado, com uma tradução e curto comentário, aqui.

Epigraphic Saturday

O Current Epigraphy está publicando uma série de resumos dos papers apresentados no Epigraphic Saturday, organizado pela Joyce Reynolds em Cambridge na semana passada. Vale a pena dar uma olhada, tem desde o Werner Eck falando sobre a Revolta de Bar Kokhba (ele já havia apresentado este paper em Roma) até o Michael Crawford falando sobre língua e geografia na Itália romana.