Arquivo do mês: janeiro 2011

Resenha: Chris Wickham, The Inheritance of Rome

Já fazia muito tempo que eu andava querendo ler the Inheritance of Rome: a History of Europe from 400 to 1000 (publicado em 2009), o volume escrito por Chris Wickham para a Penguin History of Europe. Wickham é professor de história medieval em Oxford, e esta é sua segunda obra de síntese dedicada ao período a sair nos últimos anos: o monumental Framing the Early Middle Ages (1024 páginas) foi publicado em 2006. No entanto, enquanto Framing é um livro declaradamente dedicado às estruturas sociais e econômicas, The Inheritance é mais dedicado à política e ao jogo do poder. E acaba sendo um livro muito singular.

Wickham é um historiador raro nos dias de hoje: poucos conhecem tantas fontes tão bem quanto ele, menos ainda são marxistas auto-declarados. E isso é algo que fica visível neste livro. Política, aqui, não é entendida como um jogo das elites, ou um arranjo de instituições, mas como uma parte integral da história social do período. Wickham parte da análise das estruturas sociais para entender as relações políticas, e destas para refinar nossa compreensão das sociedades em discussão. Ao mesmo tempo, longe de se concentrar na Europa, o autor discute espaços e sociedades como Bizâncio e o Islão (Síria, Arábia, Norte da África, Espanha). Mesmo ao discutir as sociedades européias o seu enfoque é abrangente: Itália, Irlanda, Escócia, Gales, países nórdicos, Rússia, Europa Oriental – muito diferente das sínteses francesas que ainda dominam o mercado editorial brasileiro, interessadas apenas na área ao redor de Paris.

O livro não é sempre fácil de ler: Wickham não está interessado em apresentar os eventos e sucessões de reinados no Ocidente, a expansão muçulmana é explicada sem muitas referências a batalhas decisivas, e os eventos políticos que tornam a história bizantina, bem, bizantina, são deixados de lado, em favor de uma visão mais estrutural. Isso é ótimo: a alta Idade Média é um período fascinante, que merece mais do que aquelas discussões intermináveis sobre Pepino isso ou aquilo. Apesar de ficar por isso mesmo confuso para os que não conhecem o assunto, o livro é muito bem escrito: dá trabalho, mas vale a pena. Cada capítulo começa com uma estorinha, Wickham lança mão de várias anedotas para ilustrar um argumento, e o texto não se prende a minúcias – as notas são extremamente úteis. O autor não se furta na hora de tomar posição em debates, mas normalmente apresenta todas as opiniões em disputa.

É interessante pensar no que é que se ganha com a abordagem seguida aqui. Nossa visão sobre o Ocidente alto medieval tem muito a ganhar numa perspectiva comparativa, e Wickham faz bom uso da documentação egípcia. O Egito é a região melhor documentada de todo o mundo Mediterrâneo nesse período, e medievalistas fariam bem em seguir o exemplo de Wickham. Apesar de o que ele tem a dizer sobre o Oriente (Egito incluso) não ser exatamente novo (esse livro do P. Sarris é uma jóia), sua síntese não só é muito inteligente como acaba ganhando por sua comparação com o Ocidente.

Minha parte preferida do livro é a parte inicial. Não só porque trata do meu período, de 400 a 700, mas porque se trata de uma síntese extremamente inteligente. Wickham não ‘explica’ a queda do império romano, mas explica as mudanças que a acompanharam de uma forma muito feliz. Para quem acha que o marxismo não tem mais nada a oferecer para a análise das sociedades medievais (postura que parece estar dominando o medievismo no Brasil), o ultimo capítulo, “The Caging of the Peasantry” é um tremendo alerta.A revolução feudal, a mutação feudal que tanto atraiu os historiadores dos Annales já estava em andamento – uma mudança social muito mais ampla do que o advento do feudalismo, tanto em termos geográficos quanto em termos cronológicos. E muito mais relevante para a história do poder e das idéias políticas do que se poderia suspeitar.

E aí está, para mim, a grande surpresa do livro. Quando eu o comprei, eu o fiz mais por gostar da obra do Wickham do que pelo título. “The Inheritance of Rome” remete demais a títulos como “O Legado de Roma”, ou o velho “O que os romanos fizeram por nós”, do Monty Python. Mas o que Wickham mostra é que a maior herança de Roma era uma certa ‘cultura do público’, que ele só discute de maneira mais sistemática na conclusão. Até o ano 1000, reis e aristocratas, assim como camponeses e súditos em geral, faziam parte de uma organização política que operava através de uma certa (incipiente, às vezes) esfera pública (e ele cita o Habermas). Isso morre com a afirmação da aristocracia e do poder pessoal, em detrimento do poder público (oficiais representando os reis, leis, assembléias) que haviam evoluído desde o império romano.

Em suma, um livraço.

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Periódicos franceses online

Um site que tem sido muito útil para mim é o excepcional Persée, um portal de periódicos franceses, gratuito. Entre diversos acepipes, tem as revistas da Escola Francesa de Roma, de 1881 até 2000 (números mais recentes só são acessíveis através da editora italiana que publica os Mélanges). Uma coisa que eles adicionaram recentemente foram vários livros da EFR, também de graça. Muito popular entre antiquistas brasileiros por ser mais ligada à Universidade de Besançon, e portanto mais ligada a uma tradição marxista, a Dialogues d’Histoire Ancienne está lá até 2005, o que não é mal. Outros portais úteis para periódicos franceses são o HAL, Revues.org e especialmente o portal da Biblioteca Nacional Francesa, que requer um pouco de paciência justamente por causa da quantidade de material que você encontra lá.

Ancient World Online

Um site excepcionalmente útil para os antiquistas é The Ancient World Online. Uma coisa extremamente útil: a lista de jornais open access online – com mais de 800 títulos!!!

Sacerdotes no mundo romano

Vai acontecer em Oxford, no dia 15 de Janeiro, o workshop Priests and prophets in the religious cultures of the ancient world. O programa parece excelente, e uma das grandes virtudes do encontro é a de não separar religiões pagãs (por falta de termo melhor) e o cristianismo.

Um tema que tem me fascinado cada vez mais é o da persistência de sacerdócios pagãos no mundo tardo-antigo, quando o império já estava se convertendo ao cristianismo. É o caso do Norte da África, onde estes sacerdotes parecem ter sido cristãos, mas ainda assim ocupando cargos ligados ao culto imperial – numa época em que os próprios imperadores eram cristãos. Existe um artigo genial do André Chastagnol e do Noel Duval, sobre estes sacerdotes, e a explicação deles é que estes cargos perderam seu conteúdo religioso, tornando-se meras posições de prestígio nas cidades da época. O problema é que esta explicação (que não está de todo errada, eu acho) deixa de considerar as transformações que estavam acontecendo na vida religiosa da época. O cristianismo é visto aí como um dado, e se romanos eram cristãos eles não podiam ser cristãos. Acontece é que as coisas não funcionam assim, diferentes religiões não são separadas por um cordão sanitário (apesar de o cristianismo e o judaismo tentarem fazer isso). Estas religiões estão em um permanente processo de reconstrução, e é nessa perspectiva que os sacerdócios pagãos devem ser vistos na antiguidade tardia.

Imperadores Romanos

Volto de um longo período de inatividade, e por um bom motivo: Adrian Murdoch, autor do excelente Bread and Circuses, iniciou uma série de podcasts curtíssimos (dois minutos) sobre os imperadores romanos. Será um imperador por semana, sempre às segundas. O primeiro é Augusto.