Existia uma racionalidade na economia romana?

O grande José Knust, do NIEP-PREK, fez um comentário muito interessante sobre o post A Integração da Economia Romana, abaixo. O José está estudando a questão da racionalidade econômica romana, e escreveu dois bons artigos sobre essa questão que estão disponíveis na Internet (no Scribd e na revista Tessituras). Eu comecei a escrever esse post como uma resposta ao comentário dele, mas achei a discussão tão interessante que resolvi trazê-la para essa página principal. A gente pode ir enriquecendo essa discussão, e se alguém quiser dar um pitaco (inclusive o José: aqui aceita-se tréplicas!), eu faço novos posts.

Comentário do José Knust (eu inseri comentários ente colchetes):

“É necessário buscar essa racionalidade nas práticas, amplamente documentadas em fontes de diversos tipos, ao invés de recusar qualquer racionalidade econômica com base em textos literários selecionados a dedo (como fazia o Finley).” [O José está me citando]

Posso citar na minha dissertação?! rsrs
Concordo plenamente com isso. É o que tento fazer a partir de Catão e Varrão, no meu mestrado.

Minha posição é distante do que parece ser a onda do Bowman, mas nesse aspecto crítico ao paradigma do Finley, concordo totalmente. O Finley acaba, inclusive, ignorando certos aspectos das teorias de Polanyi e de Weber para martelar a idéia de que não existe racionalidade econômica, chegando ao ponto de emular a definição neoclássica de racionalidade.

Agora, o risco que percebo é o da simples inversão de paradigma, como acho que fazem diversos autores anglo-saxões (sendo o Peter Temin o mais exagerado, de longe). Pra contrapor a tese “o comportamento é costumeiro então não existe racionalidade” do Finley eles defendem simplesmente a inversão “o comportamento é instrumental então existe racionalidade (e economia de mercado)”. Sendo que todo mundo nessa discussão, sejam os adeptos de Finley, sejam os contrários, trabalham com o conceito de racionalidade neoclássico como premissa quase que inconsciente (com o fortalecimento do neoinstitucionalismo do North, a coisa tem ficado mais explícita).

Por isso ainda acho a melhor contribuição pra esse debate o capítulo sobre “Racionalidade Imperial” (não lembro o nome exato) do Schiavone no “História Rompida”.

Minha resposta:

 Oi José,

em primeiro lugar obrigado pelo comentário e pela visita! O seu argumento é muito importante, e eu concordo com você em algumas coisas. Justamente por isso, para não perder tempo, vou falar das minhas discordâncias. Eu discordo de você em dois pontos: 1. não acho que o Bowman esteja trocando um paradigma pelo outro que você descreve (o Peter Temin é realmente uma reação exagerada); 2. acho o texto do Schiavone viciado pela perspectiva teórica dele, apesar de gostar demais do livro e recomendar a leitura a todo mundo que gosta de história romana, história em geral ou de coisas inteligentes..

Vamos aos pontos, começando com o Schiavone: eu acho que ele exagera o papel da escravidão na sociedade imperial, sem ter dados para isso. Ele estima uma população escrava muito alta para a Itália (que eu acho que a Itália não comporta), e generaliza isso para o resto do império. A base para os números dele sobre a população escrava na Itália tem dois pés:

a) os números do Beloch e do Brunt para a população total (que ainda acho que são os melhores disponíveis) são baseados em chutes bem informados. O problema é que de ‘a Itália tinha X milhões de pessoas’ para ‘x% eram livres, x% eram libertos e y% eram escravos’ vai uma distância muito grande.

b) O outro pé é a comparação com a sociedade escravista nos EUA (o Finley gostava disso), que tinha c. 30% da população escrava. Mas é preciso se lembrar que o escravismo ‘estadosunidense’ do XIX era posterior à revolução agrícola e ao crescimento brutal da produtividade, o que permitia um número muito grande de escravos e mesmo de uma ‘classe ociosa’. Minha impressão é que a barreira estrutural que o Schiavone enxerga existia, mas ela é muito menos importante do que ele pensa – e ele faz isso por ser um dos membros do grupo que nos anos 80 discutiu o escravismo italiano no Instituto Gramsci (e eu sou fã deles). 

A questão dos paradigmas é muito interessante: eu concordo com você com respeito ao Finley. Mas eu acho que tem certos probleminhas no que você parece tirar daí. Em primeiro lugar, não vejo porque seria um problema usar a definição de racionalidade econômica da economia clássica. A racionalidade do homo oeconomicus é um elemento central no desenvolvimento econômico moderno e nos estudos dedicados a ele, mesmo que não exista como tipo puro. Nada mais natural do que usar um conceito tão importante para estudar opassado, desde que não se queira reduzir o passado a este conceito – o que eu acho que alguns membros da historiografia ‘modernista’ faziam.

O Bowman e seu grupo fazem parte de um esforço de contar e catalogar os dados disponíveis sobre a economia romana. Eles acham que existe uma racionalidade, mas não sabem que racionalidade é esta. A idéia é que colocando tudo o que se pode saber no papel vai ser possível ver padrões, tendências, regularidades, etc. Isso não pode ser feito, mas merece ser tentado. No final das contas, acho que tanto a historiografia marxista italiana (essa desapareceu, praticamente e vou escrever sobre isso daqui a pouco) quanto os ‘Finleynianos’ vão se beneficiar da pesquisa quantitativa do Bowman. Veja bem, eles não querem fazer ‘cliometria’, mas evitar dois exageros: o indutivismo do finley que selecionava as fontes que ele conhecia melhor do que ninguém para se encaixar nas suas pesquisas e a teoria do ‘setor dual’ do marxista W. Kula, usada por Carandini para explicar a economia italiana.

Um outro ponto importantíssimo é o fato de que todo o debate até agora foi baseado na evidência italiana – quando para o alto império vemos um crescimento na importância da economia das províncias (uma coisa que o Rostovtzev tinha sacado). Para Gália, Hispania e Norte da África a arqueologia é o caminho; mas a chave de tudo está no Egito, que é muitíssimo bem documentado mas ainda é pouco estudado ou então visto como uma anomalia (mesmo por papirólogos, o Bowman sendo uma exceção). A virtude da pesquisa do Roman economy project é que vai nos permitir considerar todas estas possibilidades, colocando nossos trabalhos em bases muito mais sólidas.

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2 Respostas para “Existia uma racionalidade na economia romana?

  1. Oi Guto,
    Obrigado pela honra de destacar meu comentário! Fiquei me achando!

    Indo aos pontos de discordância:

    Schiavone e a Escravidão:
    Concordo que existe um exagero na estimativa da população escrava. E esse é um erro até meio simplório que a historiografia sobre o tema demorou pra encarar de frente (provavelmente por que o Finley o cometia, e contrariar Finley é sempre difícil!). Exagerando um pouco, o raciocínio era quase “Roma é uma sociedade escravista, sociedades escravistas tem 1/3 da população escrava, Roma tem 1/3 da população constituída por escravos – pulo do gato genial -> Roma é uma sociedade escravista por que (além de outras coisas) tem 1/3 da população escrava. O Walter Scheidel bate bonito nesse raciocínio, não perdoando inclusive o Brunt.

    Mas não acho que isso seja um problema para o ponto do argumento do Schiavone que eu ressalto. É claro que é mais do que necessário, nessa altura do campeonato, redefinir o que significa dizer que Roma é uma sociedade escravista à luz desses debates demográficos. Mas, dos marxistas, o Schiavone parece ser inclusive o que menos enfatiza a escravidão ao falar da racionalidade. É diferente, por exemplo, do Jacques Annequin, que fala sobre uma Racionalidade do Sistema Escravista. O que o Schiavone defende é a existência de uma racionalidade imperial, enfatizando que a aquisição de riquezas pela elite romana, especialmente no período tardo-republicano, não passa apenas por aquilo que nos acostumamos a chamar de econômico (investimento na produção agrícola, no comércio ou no sistema financeiro), mas pela atividade militar-imperial (a qual eu acrescentaria a atividade política – inclusive acho que o “financiamento de campanha” na Roma republicana bem merece uma pesquisa).

    E aí a gente já entra no segundo ponto:
    Apesar de ter umas coisas do Bowman e de outros membros do Oxford Roman Economy Project no meu computador esperando para serem lidos, ainda não o fiz. Ou seja, to falando de orelhada. Então não sei de fato se o Bowman faz isso, mas identifico esse problema de inversão de paradigma em alguns autores dessa “onda neomodernista” (uso esse termo de coração aberto, sem preconceitos! rs). Dando nome aos bois: Temin, Dominic Rathbone e Dennie Kehoe. Dói o coração falar, mas até o Neville Morley (Metropolis and Hinterland é o meu livro sobre economia antiga preferido), em essência cai no mesmo erro. E o erro, na minha opinião (e aqui vamos discordar de fato) é o uso da racionalidade econômica neoclássica como premissa.

    Concordo que conceitos importantes para o estudo de determinadas sociedades possam ser usados como parâmetros para o estudo de outras realidades, acho uma grande bobagem o purismo de querer fazer história apenas “a partir dos conceitos das pessoas da época”… pois vá escrever teses e dissertações em Latim Clássico quem pensa assim! rs Se toda História é História Contemporânea, toda metodologia histórica é, em algum nível, história comparada! Mas o uso desse conceito especificamente (racionalidade econômica neoclássica) como premissa (muitas vezes inconsciente!) nos estudos da economia antiga me parece criar um problema sério. O que esses autores acabam fazendo é afirmar que a diferença entre a economia capitalista e a economia romana é dada apenas por certos limites (sejam tecnológicos, sejam institucionais) que impedem o total desenvolvimento da economia de mercado na Roma Antiga. Como a Racionalidade Econômica é a mesma, fica-se buscando os pontos que limitam a performance desta Racionalidade. Mesmo o Kehoe, que recentemente aderiu de corpo e alma ao neoinstitucionalismo, se limita a identificar como as instituições romanas (especificamente o direito romano, que é a praia dele) incentivam ou limitam a performance mercantil. E aí a discussão fica girando em torno disso: o que limita a performance econômica na Roma Antiga?

    Comparar não é apenas identificar semelhanças e limites nessas semelhanças, mas também identificar as diferenças de essência. Ao partir do homo oeconomicus como premissa, essa abordagem não consegue fazer isso. Seja identificar as diferentes relações de produção (por um caminho marxista) ou as diferentes formas de integração econômica (por um caminho polanyiano) ainda me parece fundamental para caracterizar a economia romana como qualitativamente diferente da economia capitalista, e não apenas quantitativamente.

    Voltando ao Bowman e seu projeto, pra dar um exemplo: vamos supor que ele queira quantificar a integração econômica entre, sei lá, a Dácia e a Britannia Romana. Aí, vai saber, ele chega a conclusão que existia uma quantidade gigantesca de produtos oriundos da Dácia chegando à Britannia. Se não parar pra pensar nesse tipo de coisa que eu acho importante, a reação automática vai ser considerar a relação econômica que permite essa integração como mercantil e dizer que existia uma pujante economia de mercado no império romano. Não sei se é o caso (como disse, não li o pessoal do projeto), mas é um risco sempre grande. Até por que, caracterizar o comércio na antiguidade sem naturalizar o capitalismo é um dos maiores desafios para o estudo das economias pré-capitalistas.

    É nesse contexto que acho importante a idéia do Schiavone sobre Racionalidade Imperial. Mas não só marxistas trabalham nesse sentido. O John Love, por exemplo, trabalha com o conceito weberiano de Capitalismo Político para falar do mesmo assunto defendendo uma idéia parecida. Eu acho o termo péssimo (ele conceitua capitalismo como um tipo de comportamento e não como um sistema econômico-social), mas a idéia é bem interessante.

  2. Caros José e Guto,

    Esse é um debate que acho muito interessante. Concordo com o José de que na verdade Schiavone está a redimensionar o papel da escravidão no mundo romano. Parece-me que ele minimiza o impacto econômico da escravidão ao apontar que os escravos eram no fundo subaproveitados pelos senhores por estes terem uma mentalidade avessa ao reino da produção e à transformação da natureza. A racionalidade imperial seria política e guerreira antes que ecônomica. Mas o problema que vejo nessa perspectiva, em que Schiavone segue Finley – é que esse dado não é uma exclusividade de Roma e de seus sistema imperial, é um dado que caracteriza a estrutura antropológica do homem antigo, de Homero à queda de Roma, aliás os mesmos marcos que Finley utiliza para definir sua “economia antiga”. Nesse caso perde-se o sentido da própria especificidade do caso romano, pois, em última instância, repousa numa base mental “greco-romana” comum. O Andreau propõe no último livro dele sobre economia romana deixar de compará-la com a modernidade e traçar paralelos com outras sociedades pré-capitalistas. Talvez seja uma saída, mas a historiografia dificilmente abandona esse espectro do “homem econômico”, criticado por Polanyi.

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