A Integração da Economia Romana, palestra de Alan Bowman

Logo que eu cheguei a Heidelberg Alan Bowman, de Oxford, fez essa palestra no seminário de História Antiga. Isso foi no longínquo 16 de Julho de 2008, e eu deixei minhas anotações de lado mas sempre com a intenção de falar disso aqui. A. Bowman, para quem não sabe, é Camdem Professor de História Romana em Oxford, e um dos maiores especialistas em papirologia do período romano da atualidade. Ele foi editor de alguns volumes da Cambridge Ancient History, das tabuinhas de Vindolanda (uma fortaleza militar romana na Inglaterra), além de diretor do Centre for the Study of Ancient Documents de Oxford. Ele atualmente dirige o Oxford Roman Economy Project, com Andrew Wilson, um projeto que tem como objetivo estudar a economia romana de uma forma quantitativa. Isso é algo radicalmente diferente do que era preconizado por Moses Finley e sua abordagem sobre a economia romana. Uma última referência nesse sentido, que é interessante como curiosidade: tanto Bowman quanto Finley foram professores na Rutgers University. A pergunta que interessa a Bowman é como podemos estudar a economia romana? O que quer dizer integração? Desde os anos 90 esse campo de estudo está expandindo, e importantes inovações tem sido feitas – metodológicas e teóricas. Para ler sobre a palestra, clique abaixo.

A questão da integração geralmente é tratada com base naquilo que nós já sabemos, e o ponto levantado pelo Bowman e seu projeto é que devemos nos concentrar em algo mais abrangente, ‘aquilo que podemos saber’. A economia mediterrânea era integrada, mas como funcionava essa integração? Até que ponto ela era integrada? Faz sentido falar em ‘economia romana’? A maior parte de nossas fontes nos dá uma visão da economia numa escala ‘micro’.

Uma inscrição famosa de Kasserine, na Africa Proconsularis (CIL VIII, 212=AE 1993, 1714, linhas 28-31) que foi encontrada em um mausoléu do século II (dos Flavii, veja maiores informações aqui), recorda vínculos comerciais entre essa família e a África com diversas partes do império: Grécia, Hispania, Galia, Líbia e Itália. Muita da evidência é anedótica, por exemplo a passagem da vida de Augusto narrada por Suetônio na qual ele diz que o imperador obrigou membros de sua corte a gastarem o dinheiro que ele deu em produtos alexandrinos. Até que ponto isso pode ser indicação de uma política econômica do governo imperial? A resposta é ‘provavelmente muito pouco’, mas isso ilustra a dificuldade que temos em mostrar uma ‘política econômica’ consicentemente perseguida por governos romanos. Ao mesmo tempo, não dá para desprezar a possibilidade de tal política ter existido, uma vez que existem elementos – como o édito dos preços de Diocleciano , o confisco neroniano de terras na África e as leis imperiais sobre corporações – que indicam uma racionalidade por parte do governo central.

É necessário buscar essa racionalidade nas práticas, amplamente documentadas em fontes de diversos tipos, ao invés de recusar qualquer racionalidade econômica com base em textos literários selecionados a dedo (como fazia o Finley).  Depois de 300 d.C., o orçamento imperial passou a ser elaborado por um departamento específico do governo, sob a autoridade do prefeito do pretório – como negar uma certa racionalidade? Será que já existia um tipo de departamento semelhante antes disso? Será essa uma questão relevante?

Bowman observou que assentamentos urbanos e rurais variavam demais no império. A urbanização é considerada uma das marcas da romanização, e ele estima que de 10 a 40% da popuação vivesse em cidades [o que é bem vago, diga-se de passagem].  A idéia de cidade consumidora, nesse sentido, enfraquece a idéia de integração imperial, pondo ênfase na sua autarquia.

Um bom exemplo de como a economia romana era integrada de um modo muito sofisticado é o papiro encontrado em Oxyrhinchus, no Egito, datado de 238-244, e publicado como P. Oxy. L3593 (tem uma foto dele aqui). O papiro registra uma venda de um escravo, com instruções enviadas para um banco em Rhodes. Que a venda de um escravo no interior do Egito pudesse envolver uma instituição financeira na Grécia é algo que merece ser considerado com calma.

O resultado do projeto de Bowman ainda não está claro. O primeiro belo resultado desta pesquisa foi publicado: Quantifying the Roman Economy, não por acaso uma obra reunindo artigos de caráter metodológico. Finley teria dito que decorar uma lista de nomes e endereços de todos os habitantes de uma cidade não faria com que você conhecesse a cidade melhor. Isso é verdade, mas o fato é que nesse caso a cidade não existe mais. Ignorar a tal lista, ou mesmo as poucas páginas dela que sobraram não me parece um princípio metodológico muito mais razoável. O que se faz nesse caso é discutir modelos teóricos da cidade – o que só é realmente uma aproximação da realidade histórica antiga quando todos os tipos de informação disponível são levados em consideração. Se não vira um jogo de abstração.

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2 Respostas para “A Integração da Economia Romana, palestra de Alan Bowman

  1. “É necessário buscar essa racionalidade nas práticas, amplamente documentadas em fontes de diversos tipos, ao invés de recusar qualquer racionalidade econômica com base em textos literários selecionados a dedo (como fazia o Finley).”

    Posso citar na minha dissertação?! rsrs
    Concordo plenamente com isso. É o que tento fazer a partir de Catão e Varrão, no meu mestrado.

    Minha posição é distante do que parece ser a onda do Bowman, mas nesse aspecto crítico ao paradigma do Finley, concordo totalmente. O Finley acaba, inclusive, ignorando certos aspectos das teorias de Polanyi e de Weber para martelar a idéia de que não existe racionalidade econômica, chegando ao ponto de emular a definição neoclássica de racionalidade.

    Agora, o risco que percebo é o da simples inversão de paradigma, como acho que fazem diversos autores anglo-saxões (sendo o Peter Temin o mais exagerado, de longe). Pra contrapor a tese “o comportamento é costumeiro então não existe racionalidade” do Finley eles defendem simplesmente a inversão “o comportamento é instrumental então existe racionalidade (e economia de mercado)”. Sendo que todo mundo nessa discussão, sejam os adeptos de Finley, sejam os contrários, trabalham com o conceito de racionalidade neoclássico como premissa quase que inconsciente (com o fortalecimento do neoinstitucionalismo do North, a coisa tem ficado mais explícita).

    Por isso ainda acho a melhor contribuição pra esse debate o capítulo sobre “Racionalidade Imperial” (não lembro o nome exato) do Schiavone no “História Rompida”.

    José Knust.

  2. Pingback: Antiguidades Romanas

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