Arquivo do mês: fevereiro 2010

Bibliografia (2): Roma na Antiguidade Tardia

Para quem viu a primeira bibliografia, e depois leu o texto abaixo, aqui vai uma bibliografia básica sobre a cidade de Roma na Antiguidade Tardia.

1. Rome. Profile of a City, 312-1308 de Richard Krautheimer é antigo, ultrapassado em algumas coisas, mas brilhante e fundamental. É uma história da cidade que incorpora a história social, política, artística e arquitetural da cidade. Krautheimer foi um dos maiores especialistas na arquitetura cristã, mas além disso conhecia a Roma medieval como ninguém (ele morava em um edifício medieval no Trastevere). O livro é uma ótima leitura para quem gosta de bons livros, para quem gosta de história e para quem gosta de arquitetura. Além de ser muito bonito, com centenas de fotos e ilustrações.  

2. Roma Christiana. Recherches sur l’Église de Rome, son organisation, sa politique, son idéologie, de Miltiade à Sixte III, de Charles Pietri. É tão pesado e detalhista quanto o título sugere. Mas é fundamental, uma história de Roma contada do ponto de vista da cristianizãção da cidade.

3. The Transformations of Urbs Roma in Late Antiquity, organizado pelo William Harris – livros de conferência costumam ser chatos, indicando bem o quão chatos são estes eventos. Essa é a exceção: os artigos são excelentes, de altíssimo nível e bem escritos (em espanhol, italiano e inglês). Diversos aspectos são aborados, desde arquitetura doméstica, monumentos públicos, história social, cristianização, etc.

4. Rome dans l’Antiquité tardive, de Bertrand Lançon é um livrinho da série vida cotidiana. É interessante, junta um monte de informação útil. Não é uma brastemp, mas é uma boa introdução. Também existe em inglês.

5. Pagan City and Christian Capital, do John Curran é um belo update nos livros de Pietri e Krautheimer (1 e 2). Além disso, tem caítulos muito bons sobre os jogos na Roma tardia e sobre a influência do monaquismo na vida das elites romanas.

6. Finalmente, La Conversione. Da Roma pagana a Roma cristiana, de Augusto Fraschetti – a melhor produção acadêmica sobre Roma é naturalmente a italiana. Infelizmente os italianos têm pouca repercussão no mundo anglo-saxônico e francês (tirando exceções). Dupla infelicidade, os italianos parecem se recusar a escrever sínteses sobre o período. Fraschetti não. Urbanismo, arquitetura, história política, filologia, história religiosa, tudo entra nesse livraço, cheio de idéias e interpretações novas. Não é fácil de ler, mas vale a pena.

Roma na Antiguidade Tardia: Blogando o livro

Uma das idéias por trás de criar esse blog foi de fazer updates das pesquisas que estou fazendo. Eu faço isso de maneira intermitente, mas está na hora de começar a blogar sobre o livro que estou escrevendo. O livro é uma versão bastante modificada de minha tese de doutorado, sobre espaço urbano e poder aristocrático na Roma tardoantiga (284-535). A idéia da tese era bem simples: fazer uma história local da maior cidade do Mediterrâneo (do império) durante um período de mudanças bruscas. E que mudanças: no fina do século III a cidade começou a passar por tremendas transformações urbanísticas,  a mais espetacular de todas sendo a construção da muralha de Aureliano: 19 km cortando um espaço que até então havia sido densamente habitado. Muitas construções públicas e privadas foram demolidas, incorporadas, partes inteiras da cidade foram abandonadas.

Outras transformações foram ábruptas, mas igualmente impactantes: a cristianização da cidade e o declínio da presença imperial. Durante o século IV os imperadores no Ocidente viveram em lugares como Trier, Milão e (no início do século V) Ravenna. Mas no século V eles tenderam a passar cada vez mais tempo em Roma, que virou residência imperial mais uma vez (é o que mostrou Andrew Gillett, em um artigo publicado nos Papers of the British School at Rome, 2001). Mas essa presença não se compara ao que havia nos séculos do Alto Império, quando imperadores eram muito mais poderosos. A maior parte dos estudiosos se concentra em anaisar um destes dois processos: o declínio do poder imperial e a cristianização da cidade – o processo pelo qual igrejas viraram os mais importantes espaços sociais, e o bispo de Roma e seu clero tomaram o lugar da elite tradicional.

Na tese eu estava interessado em entender com um grupo que, apesar de não ser negligenciado (nem podia ser, dado que existem tantas fontes) é normalmente colocado a reboque destas transformações: a aristocracia senatorial. A elite romana era a mais poderosa do império, com conexões na corte, propriedades em todas as províncias, clientes, amigos, cargos, etc. Esse grupo era uma elite imperial no século IV, mas no decorrer do século V tornou-se uma elite local, à medida em que o império foi invadido e o “Ocidente” ficou reduzido à Itália. O que me interessou foi o processo de apropriação do espaço urbano a que eles submeteram Roma e sua popuação: espaços públicos foram privatizados, monumentos foram escolhidos para preservação, enquanto outros foram abandonados, e suas casas viraram espaços políticos-públicos de primeira grandeza. Esse processo entrou em crise no início do século VI, mais especificamente em 535, quando as tropas do imperador Bizantino Justiniano invadiram a Itália, iniciando uma guerra que botou a península no chão.

O primeiro capítulo, no qual estou traballhando agora (quase acabando) é dedicado ao envolvimento da aristocracia senatorial na construção civil. Em breve, falo disso aqui.

Bibliografia sobre história romana (1)

Existem centenas de milhares de livros sobre a história de Roma. É impossível, para o especialista, ficar atualizado sobre tudo.  O objetivo aqui não é apresentar uma bibliografia completa, mas de livros que eu gosto muito: aqueles que raramente ficam parados na estante, mesmo que eu não esteja trabalhando com eles.

1. Tim Cornell, The Beginnings of Rome – apesar de meu interesse profissional estar no fina do Império, meu livro favorito é sobre as origens de Roma. Esse é um dos temas mais difíceis de se estudar, na minha opinião. Isso é por causa da arqueologia, mas principalmente das fontes literárias. A tendência é ler os textos, como Tito Lívio, como chave para entender a arqueologia (é o que faz o Carandini). Cornell, apesar de historiador, não cai nesse erro. O livro é uma aua de metodologia histórica, além de ser muito bem escrito. Não é fácil de ler, mas é uma aula de como escrever história antiga. Para quem tem mais interesse, eu discuti um pouco estas questões em um post do meu antigo blog, aqui.

2. Michael Crawford, The Roman Republic. Um livraço, muito diferente do livro do Cornell. Essa é uma grande síntese histórica, em um livro pequeno. O livro cobre a história da República romana, mais ou menos do século IV a.D. em diante. O livro não dá grande atenção à história cultural ou religiosa, mas quem tem Scipião, Tibério e Caio Graco, Sula e César não precisa destas coisas. É leitura empolgante, com pouca discussão historiográfica e muitas citações de fontes. É o único livro que eu conheço no qual o autor pode escrever que a República caiu porque não existia socialismo e ainda assim merecer todo o respeito do mundo.

3. Michael Crawford e Mary Beard, Rome in the Late Republic é bom, bonito, curto e muito barato. Não é novo, mas é uma síntese excelente, e eu não mudaria quase nada dali. Cícero. César. Pompeu. Augusto. Não precisa dizer mais nada. Mas eu vou dizer: Crawford repete algumas idéias do livro anterior, mas Beard adiciona religião e cultura ao mix, e o resultado é excelente.

4. Fergus Millar tem doiss livros excepcionais (tem mais, mas estes têm a ver com esta lista): Rome, The Greek World and the East, vol. 1; e The Emperor in the Roman World. O primeiro é uma coletânea de artigos nos quais Millar revisita o que nós sabemos sobre a política na Roma republicana, e mostra que esta era muito mais democrática do que se pensava. Os artigos são bons e bem escritos, além de inspiradores. O segundo, carinhosamente chamado ERW pelos seus leitores, é de certa forma um kill joy: é chato, difícil de ler, tem mais notas de rodapé por linha do que você consegue acompanhar, e você ainda termina de ler deprimido pensando “o que é que me resta fazer?”. Os dois são essenciais.

5. The Roman Revolution, de Ronald Syme. A crise da República e a ascensão do regime imperial não foi uma simples transição política, mas uma revolução social, marcada pela tomada de poder por uma elite nova, italiana e não mais romana. A tese parece simples, mas Syme mostra como é que se faz história política e social a partir da prosopografia. Talvez seja o livro clássico mais influente sobre o período.

6. O livro do Syme atualmente só perde em influência para The Power of Images in the Age of Augustus, de Paul Zanker. Zanker analisa o mesmo período que Syme, Beard e Crawford, mas do ponto de vista de um arqueólogo: lendo os monumentos de Roma, e desenvolvimentos na arte e arquitetura, além do urbanismo, ele mostra que a chegada do império afetou a vida de todos, e também a consciência política daquela sociedade. O livro é cheio de fotografias, e é belíssimo. O livro do Cornell citado em (1) é para quem quer ser historiador da antiguidade. O de Zanker é para quem quer um livro sobre Roma só em toda a sua vida. O risco é acabar decidindo virar historiador depois disso.

Por hoje chega, depois continuo.