Arquivo do mês: janeiro 2010

Mais sobre o código Gregoriano, e más notícias para o futuro

Complementando o post anterior, um post interessante do Roger Pearse sobre os fragmentos do código Gregoriano descobertos em Londres. Na página do Projet Volterra, uma discussão dos Fragmenta Londiniensia, trabalho onde esta descoberta se deu. Infelizmente, a onda de cortes no financiamento de Universidades promovida pelo medíocre governo trabalhista atual vai destruir os fundamentos desta descoberta: pelo visto a cadeira de Paleografia do King’s College de Londres, a única cadeira estabelecida nesta área no Reino Unido, vai rodar. O Reino Unido é atualmente, na minha opinião, o maior centro em estudos clássicos do mundo. De lá saem os livros mais interessantes, as idéias mais inovadoras, as reinterpretações mais influentes e também os estudos mais sólidos (uma posição que a França e a Alemanha já tiveram). O futuro não parece muito animador.

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Direito Romano – links e algumas observações

No curso da pós no ano passado eu e meu orientador tivemos  4 alunos que faziam direito, e não história (também tinha um que fazia educação física!). Advogados costumam ter grande interesse por história romana, mas esta é uma relação complicada. História e direito são próximas o suficiente para que representantes de uma disciplina falem da outra com autoridade mas sem substância. Do ponto de vista do historiador do Baixo Império, isso é ainda mais importante.

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Sobre a objetividade na História Antiga

Trecho de uma resenha da nova edição d aCambridge Ancient History, por P. J. Rhodes:

“But I am not a relativist, as I have indicated in a more recent review article. We are still subject to change, but the world of the Greeks and Romans is not, and we are not at liberty to construct it in whatever way we like. It is indeed for us to approach that world in our own way, to decide what questions we need to ask and how we ought to look for answers to them, to stress this but not that, to make connections which we think important and not to make connections which we think unimportant; but in doing this we are trying to do justice to people and communities who actually existed and to a varied and extensive body of evidence about them. No construction can do total justice and no injustice, because no one construction can be complete, because we are not Greeks and Romans, because there are many things which we do not know and many things to which we are blind; but some constructions are better than others, and not only because they cater for our own needs better than others but because they do more justice and less injustice to what we are studying than others. If we are serious historians, our job is not to indulge ourselves but to engage with our subject-matter. This means also that, while it is a good thing to search our souls from time to time, to become conscious of what we mostly do sub-consciously, to become aware of our own prejudices and presuppositions, we must retain a sense of proportion and remember that we are searching our souls in order to do history better, not doing history in order to search our souls better.”

(Histos, 1999)

Zonaras

Uma resenha de uma tradução (a única que conheço) de parte da obra do historiador bizantino Zonaras. Apesar de ter vivido no século XII, Zonaras é uma fonte importantíssima para a história do Império Romano entre os anos 230 e os anos 400, por citar uma série de autores que não sobreviveram. A resenha de Kaldellis dá uma boa idéia das dificuldades colocadas por esta fonte. Este é, aliás, um problema que historiadores da antiguidade têm que enfrentar que não aparece na história contemporânea. Um historiador da França moderna pode usar a obra de Jules Michelet como bibliografia secundária, ou como fonte para estudar o pensamento político, ou a historiografia francesa no XIX. Um historiador do século XXI tem necessariamente que usar um historiador  bizantino do XII para entender a história do império romano no século III. Os problemas epistemológicos contidos nessa afirmação não têm fim.

Roma e Constantinopla em Oxford

Dois seminários em Oxford especialmente interessantes, um sobre Roma e outro sobre Constantinopla, depois do fold (para uma lista completa dos seminários em Classics clique aqui; sobre a Antiguidade Tardia, aqui):

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Apagando inscrições no mundo grego

Lá no Current Epigraphy tem um breve relatório da palestra que Graham Oliver deu no Institute of Classical Studies de Londres no dia 14 de Janeiro, sobre a destruição de inscrições na Grécia Antiga. Não há necessidade de repetir o argumento do Oliver aqui, mas gostaria de chamar a atenção para o fato de que isso era comum no mundo antigo. De fato, esse é um problema para o qual epigrafistas começaram a prestar mais atenção recentemente: o re-uso de monumentos, suportes materiais para novas inscrições. Essa prática é uma fonte de informação crucial para interessados na história política e da cultura material no mundo antigo. Meu exemplo preferido, no entanto, não é epigráfico, mas literário: em sua oração 31, Dião Crisóstomo (final do século I d.C.) ataca os habitantes de Rodes por apagarem as inscrições que identificavam estátuas honoríficas expostas na cidade, para homenagearem outras pessoas. O resultado, como Dião nos informa, incluiu estátuas de mulheres identificadas como homens e estátuas de atletas identificadas como velhos.  Para quem tem interesse, a oração de Dião pode ser lida traduzida para o inglês no excelente Lacus Curtius. Para quem quiser mais, o discurso 37, também atribuído a Dião mas na verdade escrito por Favorino (seu aluno) também trata do mesmo tema.

Eu tratei do re-uso de bases de estátuas na Itália da Antiguidade Tardia em uma conferência sobre epigrafia tardoantiga. Esse texto ainda vai ser publicado, mas eu achei os textos listados abaixo muito úteis:

* H. Blanck, Wiederverwendung alter Statuen als Ehrendenkmäler bei Griechen und Römern (Rome, 1969); C. Löhr, “Die Statuenbasen im Amphiareon von Oropos”, Athenische Mitteilungen 108 (1993) 183-212; A. Jacquemin and D. Laroche, “Notes sur trois pilliers delphiques”, Bulletin de Correspondence Hellenique 106 (1982), 191-218;  J. Shear, “Reusing statues, rewriting inscriptions and bestowing honours in Roman Athens”, in Z. Newby and R. Leader-Newby, Art and Inscriptions in the Ancient World (Cambridge, 2007), 220-46. Sobre o discurso de Dião e os problemas que ele levanta para a epigrafia, C. Roueché, “Written display in the Late Antique and Byzantine City”, in E. Jeffreys (ed.), Proceedings of the 21st International Congress of Byzantine Studies, Hampshire, 2006, p. 243.

Casas aristocráticas na Roma do Baixo Império

Estou fazendo a revisão de um artigo escrito 3 anos atrás, sobre o impacto das casas da aristocracia romana no urbanismo da cidade tardoantiga.

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