Arquivo do mês: dezembro 2009

Inscrições honoríficas e votivas

O título deste post deveria ser “como traduzir o dativo em dedicações de monumentos honoríficos latinos”, mas esse blog já tem poucos leitores, então é melhor maneirar.

Vinte e cinco anos atrás, Simon Price publicou um artigo fundamental, “Gods and emperors: the Greek language of the imperial cult”, Journal of Hellenic Studies 104 (1984), 79-95. Nesse artigo, Price mostrou que dedicações, seja de altares ou de estátuas, quando feitas para imperadores, eram feitas na verdade em seu nome, e não para eles mesmos. Ou seja, imperadores eram considerados divinos, mas não deuses.  Price não tratou de inscrições latinas ou do ocidente romano, e nesse momento estou tentando encontrar alguém que tenha tratado desse assunto.

Uma base de estátua dedicada a Constantino depois de morto, entre 337 e 340 AD em Roma, é um bom exemplo desse problema: “Divo ac venerabili/ principi Constantino/ patri principum/ maximorum/ Fl(avius) Creper[e]ius Madalianus v(ir) c(larissimus)/ praef(ectus) ann(onae) cum iure glad(ii).” A estátua foi dedicada por Flávio Crepereio Madaliano, prefeito da anona (o sistema de distribuição de alimentos na Roma do final do império). A dedicatória deveria ser traduzida assim: “Para o divino e venerável príncipe Constantino, pai dos máximos príncipes (…)” A dificuldade está em definir o peso de Para, ou seja, do dativo divo (de divus). Essa é uma oferta feita para o imperador, ou em sua honra?  A distinção é sutil, mas o que está em jogo é a concepção que temos tanto do imperador, uma figura quase divinizada, quanto da prática de dedicar estátuas. Uma sugestão que me foi feita pelo Bert Smith me parece um bom caminho para estudar esse problema: fazer uma análise de todos os verbos usados nestas inscrições, e ver a força que normalmente é atribuída ao ato de dedicar uma estátua: “consagrar” é mais forte do que “colocar”. Basta saber se alguém já estudou isso. Se sim, ótimo, se não, vale um artiguinho.

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