Catacumbas e basílica de São Sebastião na via Appia

Acabo de escrever um artigo sobre o envolvimento de aristocratas romanos na cristianização de Roma na Antiguidade Tardia. O argumento é simples: estudos da cristianização de Roma costumam se dedicar às ações de imperadores ou de membros da igreja. Minha idéia foi olhar o papel desempenhado por membros da elite local. Para isso, eu fiz três estudos de caso: a igreja de São Sebastião na via Appia (onde ficava o lugar chamado Catacumbas, que deu origem ao termo), a igreja de S. Estevão na via Latina, e a de São Pedro no Vaticano. Este post irá falar da Igreja de São Sebastião, na via Appia.

(Os links são para fotos no Flickr)

Na Roma antiga, o lugar chamado ‘catacumbas’ era uma zona na via Appia usada para a extração de tufa (uma pedra volcânica muito usada por construtores romanos) e que, por causa disso, logo virou um cemitério. O cemitério parece ter sido usado por cristãos desde muito cedo, ao menos desde o final do século I, mas era usado por pagãos também.  As excavações revelaram um columbário, e tumbas muito bonitas. Ali perto dois edifícios, tradicionalmente chamados de vilas (mas ninguém sabe a função) foram construídos. O lugar ficou muito importante para os cristão de Roma na metade do século III. Um texto escrito 100 anos mais tarde (em 354), o Feriale Ecclesiae Romanae, diz que no dia 29 de Junho de 258 as relíquias de Pedro e Paulo foram transferidos para aquele sítio. Presume-se que isso foi feito na época das grandes perseguições, para proteger as relíquias dos santos. As relíquias retornaram depois para seus lugares originais (Vaticano no caso de Pedro e via Ostiense, no caso de Paulo – e se você acha isso questionável ou improvável e apenas mais uma lenda cristã, conta com minha simpatia). 

Mas o lugar permaneceu importante. Durantes as excavações, arqueólogos descobriram centenas de grafites em grego e latim, deixados por peregrinos e fiéis em geral, mencionando Pedro e Paulo. Isso é tão importante que no início do século IV uma enorme igreja funerária foi construída ali. Uma igreja funerária é uma igreja no formato de um circo, que funciona como um cemitério coberto. No desenho abaixo, imagine que o chão era todo ocupado por pequenos túmulos. Por causa da lenda da presença dos apóstolos, a igreja foi chamada de Basilica Apostolorum. Ninguém sabe quando a basilica foi construída, mas já estava pronta por volta de 340-345, quando os mausoléus ao redor dela foram construídos. Estes mausoléus pertenciam a famílias poderosas, e era uma forma de depositio ad martyres, ou seja, a idéia de que ser enterrado junto do mártir faz com que você se beneficie um pouco da santidade de suas relíquias.

S. Sebastiano, plano

 

Por volta de 370 d.C., o papa Dâmaso deixou uma inscrição, falando que os apóstolos haviam estado ali. Outra inscrição fala de Eutíquio, que foi atormentado por diversas formas de tortura antes de morrer. Um mausoléu importante é a assim chamada Platônia, que no século V virou o túmulo de S. Quirino e na idade média virou uma igreja independente. Só por volta do século VII é que surgiu a lenda de que as relíquias de Sâo Sebastião foram enterradas ali, e a Igreja passou a ser chamada assim. A igreja é o melhor exemplo de arquitetura funerária cristã do século IV, e só sobreviveu porque foi profundamente transformada no século XVII, quando virou uma igreja barroca.

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