Divus Vespasianus – exposição no Coliseu

Abriu no final de Março (dia 27) a mega exposição Divus Vespasianus: Il bimillenario dei Flavi. Como o nome diz, a exposição celebra os dois mil anos do nascimento de Vespasiano, o general que venceu a guerra civil de 69 d.C. e tomou o poder após o reinado de Nero. O que fez Vespasiano realmente famoso, no entanto, foram dois empreendimentos concluídos por seu filho, Tito: a vitória sobre a revolta judaica de 66 d.C. com a tomada de Jerusalém e a construção do Anfiteatro Flávio, ou Coliseu. Sua dinastia não durou muito tempo (69-96 d.C.): Vespasiano foi sucedido pelo seu filho mais velho Tito, e logo depois pelo filho mais novo, Domiciano.

A exibição ocupa três espaços nobres na cidade: o prédio do Senado, no Forum Romano, um dos criptoporticos do Palatino (curiosamente não uma parte construída pela família dos Flávios, mas uma ala construída por Nero), e principalmente o Coliseu. Eu não consegui ver muito da exposição, porque nos dias em que estive em Roma estava trabahando no Forum Romano e não tive tempo de ir ao Coliseu, mas tive tempo de checar o Palatino e a Cúria (ou Senado), e o que vi foi impressionante. Além deste espetacular e (literalmente) colossal retrato de Vespasiano, atualmente no Museo de Nápoles, esta belíssima estátua em tamanho maior do que o natural de Tito, ricamente decorada, encontrada na basílica de Herculano e atualmente também em Nápoles.

A mostra recebeu uma acolhida consagradora da imprensa e dos meios acadêmicos italianos. Adriano La Regina, que até pouco tempo atrás era superintendente de arqueologia e antiguidades do governo italiano, publicou um interessante artigo no La Repubblica, e o programa de conferências da British School at Rome, realmente o mais interessante durantes os meses de Abril e Maio, reservou lugar de destaque para assuntos relacionados aos Flávios: Rossella Rea irá falar do Coliseu, Eugenio La Rocca irá falar do ‘Templum Gentis Flaviae’ (onde este retrato colossal de Tito foi encontrado no século XIX), e Filippo Coarelli, que organizou a exposição, irá falar da estátua equestre de Domiciano, que ficava no Forum (mas não sobrevive).

Tanta atenção é merecida: os Flávios mudaram a cara da cidade, realizando obras importantíssimas, ao mesmo tempo em que ampliaram e consolidaram o sistema de distribuição de alimentos para cidadãos romanos. Este mapinha que fiz usando o Google Earth dá uma idéia do número de áreas onde eles fizeram obras importantes – o mapa está longe de ser completo, mas ajuda a ver onde ficava o porticus Minucia, onde distribuições eram feitas, o mercado construído na vizinhança do Forum, os templos, termas, ou seja, estruturas voltadas para o bem estar físico e moral dos romanos. Tendo sucedido o reinado de Nero, os Flávios souberam se legitimar apelando para o apoio da população romana, e a construção do maior anfiteatro da antiguidade, o Anfiteatro Flávio, é o melhor exemplo disso. Construído entre 70 e 80 d.C., o anfiteatro é impressionante por fora e também por dentro, onde uma série de corredores e rampas subterrâneas permitia aos organizadores de jogos mover feras, gladiadores, soldados, prisioneiros, etc. (mas note que a maior parte das estruturas vistas atualmente é de épocas posteriores!).

Para quem visita Roma, no entanto, talvez o maior testemunho do que é que fez os Flávios capazes de realizar tantas obras ao mesmo tempo (gerando empregos e conquistando o poder da plebe) seja o arco dedicado pelo Senado e povo de Roma ao divino Tito. O arco só sobrevive em parte (foi usado como uma fortaleza na Idade Média, e por isso todo o seu exterior foi perdido), mas os relevos internos sobrevivem bem, especialmente este, mostrando os espólios trazidos por Tito depois de sua vitória sobre os judeus em 70 d.C. – o templo de Jerusalém foi destruído, a arca da aliança (aquela, do Indiana Jones) foi trazida para Roma (depois levada pelos Vândalos para Cartago, pelos Bizantinos para Constantinopla, e mais tarde para Jerusalém, e depois desaparece provavelmente com os Persas, ufa!), assim como a Menorá, que aparece nesta foto. Os Flávios assim mudaram não só a história de Roma, mas também do judaísmo (sem o templo, os rabinos ganharam importância) e do cristianismo (se deus permite a destruição destes caras, nós não temos que nos ligar a eles!). Ah sim, o arco, ao contrário do que muitos guias turísticos dizem, não é um arco triunfal: o arco celebra Tito depois de morto, e por isso ele é chamado na inscrição  divo Tito, e aparece no painel central do arco montado numa águia, forma tradicional de representar a divinização de um imperador romano após sua morte.

Para quem vai passar por Roma, informações sobre a exposição podem ser encontradas na página do Ministério de Bens Culturais. Uma coleção de fotos está aqui. O Catálogo da exposição é espetacular, e muito bonito, e o preço (60 euros se me llembro bem) nem é o maior problema: difícil é levar aquele troço pro Brasil, de tão pesado que é.

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