Vingança na guerra do Peloponeso

John Lendon, da Universidade de Virgínia, deu uma palestra aqui no Seminário de História Antiga de Heidelberg, com o título Revenge in the Archidamian War. A guerra de Arquidamo (não tenho certeza de como se traduz o seu nome em português), rei de Esparta, corresponde aos 10 primeiros anos da Guerra do Peloponeso (431-21). Como Lendon observou, esta fase da guerra, especialmente o modo como é narrada por Tucídides, coloca uma série de problemas. Em primeiro lugar, porque a estratégia espartana consistiu em atacar a Ática todo ano na primavera; os Atenienses, seguindo a estratégia de Péricles, se recolhiam dentro das muralhas da cidade, onde estavam protegidos, e assistiam os espartanos atacarem as plantações danificadas, uma tática ineficiente porque os atenienses importavam a maior parte de seus alimentos. Estranhamente, os atenienses então atacavam a Lacedemônia, e se retiravam antes que os espartanos pudessem reagir. Seria como na guerra fria os americanos e os russos fazerem pequenas incursões no Alasca e na Sibéria, mais ou menos.

Lendon procurou ler (trocadilhos estão vetados aqui) estes eventos partindo do que hoje em dia se pensa sobre as relações internacionais no mundo grego antigo: cidades-estado competiam por prestígio e honra, baseando-se num código de comportamente cujo princípio é o da reciprocidade. A guerra, nesse caso, seria uma forma de regular a distribuição de status entre cidades que competiam entre si: se Esparta invade Atenas e depois Atenas ataca Esparta, joga-se um jogo de soma zero.

O mais interessante é que a perspectiva de Lendon explica um bocado de coisas na guerra, desde o comportamento errático dos espartanos até a bizarra estratégia de Péricles. O problema, na minha opinião, é que essa teoria não consegue ir além da descrição dos fatos (mas ao menos os torna mais inteligíveis!). Isso porque, por exemplo, ela não leva em consideração o impacto econômico e político da estratégia espartana. Lendon parte do pressuposto de que os danos econômicos das invasões espartanas era mínimo, mas ele pensa isso porque parte da idéia do FInley (e outros) de que Atenas era uma cidade que importava tudo o que produzia, e que o que era produzida localmente era produzido por escravos. Mas hoje sabemos que o campesinato ático era uma parcela importante da população, e que fazia uma contribuição importante para a economia. Para estes camponeses, assistir à destruição de suas fazendas sem fazer nada, e depois retornar para elas, significava alguns anos de sérias dificuldades econômicas. Estes camponeses eram aqueles que Aristófanes criticava, que passavam a viver em Atenas, e que além disso tinham infuência em um regime democrático. Existe, na minha opinião, uma racionalidade no comportamento espartano, muito além da humilhação simbólica de que Lendon fala.

Uma coisa importante na abordagem de Lendon, entretanto, é que ele tem razão quando diz que considerações de honra e vergonha exerciam um papel importante nas relações internacionais (e ainda são importantes). Nesse sentido, ele observa, é muito mais difícil explicar a paz do que a guerra. E é raro encontrar um historiador capaz de admitir isso.

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Uma resposta para “Vingança na guerra do Peloponeso

  1. João Paulo Rodrigues

    Agora aportei aqui. Mais elogios: post claríssimo e muito interessante. Como deve ser: ultrapassa o academicismo e a academia (sem torcadilho com Atenas).

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