Arquivo do mês: outubro 2008

Vingança na guerra do Peloponeso

John Lendon, da Universidade de Virgínia, deu uma palestra aqui no Seminário de História Antiga de Heidelberg, com o título Revenge in the Archidamian War. A guerra de Arquidamo (não tenho certeza de como se traduz o seu nome em português), rei de Esparta, corresponde aos 10 primeiros anos da Guerra do Peloponeso (431-21). Como Lendon observou, esta fase da guerra, especialmente o modo como é narrada por Tucídides, coloca uma série de problemas. Em primeiro lugar, porque a estratégia espartana consistiu em atacar a Ática todo ano na primavera; os Atenienses, seguindo a estratégia de Péricles, se recolhiam dentro das muralhas da cidade, onde estavam protegidos, e assistiam os espartanos atacarem as plantações danificadas, uma tática ineficiente porque os atenienses importavam a maior parte de seus alimentos. Estranhamente, os atenienses então atacavam a Lacedemônia, e se retiravam antes que os espartanos pudessem reagir. Seria como na guerra fria os americanos e os russos fazerem pequenas incursões no Alasca e na Sibéria, mais ou menos.

Lendon procurou ler (trocadilhos estão vetados aqui) estes eventos partindo do que hoje em dia se pensa sobre as relações internacionais no mundo grego antigo: cidades-estado competiam por prestígio e honra, baseando-se num código de comportamente cujo princípio é o da reciprocidade. A guerra, nesse caso, seria uma forma de regular a distribuição de status entre cidades que competiam entre si: se Esparta invade Atenas e depois Atenas ataca Esparta, joga-se um jogo de soma zero.

O mais interessante é que a perspectiva de Lendon explica um bocado de coisas na guerra, desde o comportamento errático dos espartanos até a bizarra estratégia de Péricles. O problema, na minha opinião, é que essa teoria não consegue ir além da descrição dos fatos (mas ao menos os torna mais inteligíveis!). Isso porque, por exemplo, ela não leva em consideração o impacto econômico e político da estratégia espartana. Lendon parte do pressuposto de que os danos econômicos das invasões espartanas era mínimo, mas ele pensa isso porque parte da idéia do FInley (e outros) de que Atenas era uma cidade que importava tudo o que produzia, e que o que era produzida localmente era produzido por escravos. Mas hoje sabemos que o campesinato ático era uma parcela importante da população, e que fazia uma contribuição importante para a economia. Para estes camponeses, assistir à destruição de suas fazendas sem fazer nada, e depois retornar para elas, significava alguns anos de sérias dificuldades econômicas. Estes camponeses eram aqueles que Aristófanes criticava, que passavam a viver em Atenas, e que além disso tinham infuência em um regime democrático. Existe, na minha opinião, uma racionalidade no comportamento espartano, muito além da humilhação simbólica de que Lendon fala.

Uma coisa importante na abordagem de Lendon, entretanto, é que ele tem razão quando diz que considerações de honra e vergonha exerciam um papel importante nas relações internacionais (e ainda são importantes). Nesse sentido, ele observa, é muito mais difícil explicar a paz do que a guerra. E é raro encontrar um historiador capaz de admitir isso.

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A destruição de Antioquia

Um blog muito interessante é o Antiochepedia, onde cada post é um verbete sobre a história de Antioquia, a cidade fundada por Seleuco (um dos generais de Alexandre o Grande), que rapidamente se tornou um importante centro da cultura grega. Antioquia foi cristianizada muito cedo, e foi usada como residência imperial durante o século IV d.C.. O post de hoje é particularmente interessante, sobre a destruição da cidade por Chosroes I, que não deixou pedra sobre pedra – literalmente: os restos da cidade e de sua população foram levados para a Pérsia, onde uma nova cidade foi fundada, segundo as fontes, exatamente igual à original.

Pompéia, 300 anos

Para comemorar os 300 anos do descobrimento de Pompéia, a Soprintendenza Archeologica de Nápoles e Caserta está preparando uma grande exibição no Museu Arqueológico Nacional, em Nápoles, além de eventos em Pompéia. O site da BBC tem um slideshow com algumas imagens e um texto bem fraquinho (dizendo que as Danaides foram para o “inferno”!) (aqui). Mais informações podem ser encontradas na página da soprintendenza, ou no site de Pompéia.

Para quem está interessado na história da cidade e na vida cotidiana de seus habitantes, o livro recente de Mary Beard (na Amazon, resenhado no The Telegraph ) parece ser uma boa introdução. Eu ainda não li o livro, e nem sou fã da autora, mas este post no seu blog sugere que deve ser uma obra bem básica (as um tanto quanto sensacionalista, do tipo “todo mundo está errado mas eu sou mais esperta”). Meu livro preferido sobre Pompéia e Herculano (a outra vítima famosa do Vesúvio) ainda é o de Andrew Wallace-Hadrill. MAs para quem for visitar a área, e sabe italiano, não tem nada melhor (apesar de um pouco confuso na organização) do que o guia arqueológico escrito por Fabrizio Pesando e Maria Paola Guidobaldi (a superintendente), publicado pela Laterza.

Voltando

Depois de um longo e extremamente agitado verão, volto a escrever por estas bandas. Quem quiser saber sobre o que andei fazendo enquanto este blog esteve inativo, pode dar uma conferida no meu blog pessoal, o Amiano Marcelino (link aí do lado). Estou postando agora de Heidelberg, onde trabalho como bolsista de pós-doutorado da fundação Alexander von Humboldt. Mas o eixo de interesse aqui vai permanecer o mesmo, história antiga, Roma, arqueologia, etc.