Prosopografia e epigrafia do senado romano tardo-antigo

Como parte do trabaho pro livro, resolvi tentar entender melhor quem são os senadores romanos da Antiguidade Tardia. No início do século IV a ordem senatorial passou por uma notável expansão: de aproximadamente 600 senadores que existiam na época de Diocleciano, quase todos vivendo em Roma ou na Itália, passou a ser composta de uns 4000 senadores, espalhados por todo o império. Ser um senador, nesse caso, significa ser membro da aristocracia senatorial – detentor do status de vir clarissimus. Existem diversos estudos sobre esse processo, assim como sobre o caráter deste grupo – historiadores importantes como A. Chastagnol, A. H. M. Jones, e mais recentemente P. Heather pubicaram estudos fundamentais sobre o assunto.

No entanto, uma coisa que o meu orientador de mestrado me pergunta até hoje é: mas quem são os senadores de Roma? Que tipo de aristocracia senatorial é essa? É uma aristocracia da cidade, da Itália, tem laços com as províncias? Pode-se chamá-la de uma aristocracia imperial? Responder a estas perguntas não é fácil. Eu resolvi, assim, partir do mais básico. Estou fazendo um levantamento de quem são os membros da elite política imperial que viveram, passaram um tempo, ocuparam funções públicas, em Roma, entre 284 e 535. Isso inclui uma grande diversidade de grupos sociais: membros da ordem senatorial como um todo, aqueles que eram membros do Senado (a instituição política), detentores do status de vir clarissimus que faziam carreira na corte, etc.

Para isso existem algumas fontes principais: a mais importante é a Prosopography of the Later Roman Empire, uma obra fundamental por reunir nomes e informação biográfica sobre todas as pessoas importantes atestadas na Antiguidade Tardia. Não chega a ser um dicionário biográfico, porque é menos elaborada, mas é mais útil, pois a informação é menos processada. A outra obra é o volume 6 do CIL, o corpus de inscrições latinas da cidade de Roma. Existem outros trabahos importantes, especialmente os da Silvia Orlandi, que estudou e publicou as inscrições do Coliseu – os assentos dos senadores tinham os seus nomes inscritos, como lugares marcados.

Esse trabalho é meio bizarro, porque às vezes me sinto fazendo um catálogo telefônico (sem os telefones). Por outro lado, alguns padrões interessantíssimos já podem ser vistos (ainda estou lidando com informação do século IV). Em primeiro ugar, a elite romana é muito mais internacional do que eu esperava: gente de todos os cantos ainda vinha para a cidade no final do século IV, e S. Agostinho é apenas um exemplo. Em segundo lugar, esta elite romana  é verdadeiramente imperial. Hoje encontrei com Enrico Zanini, que escava em Gortina na Grécia, e me sugeriu olhar as inscrições encontradas lá e publicadas pela Margherita Guarducci em 1929: várias delas homenageiam membros da elite romana, mas os laços entre estas pessoas e a cidade de Gortina ainda não estão claros para mim. O fato de que um Prefeito Urbano, ou seja, o mais importante funcionário na cidade de Roma, pudesse ser homenageado na Grécia, é digno de nota, e mostra a inserção desta elite nas demais cidades do império.

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