Arquivo do mês: junho 2008

Conferência em Perugia

Vai acontecer na semana que vem uma conferência sobre Instituições, Carismas, e Exercício do Poder na Antiguidade Tardia. A conferência é organizada por Rita Lizzi Testa e Giorgio Bonamente, e reunirá estudiosos do calibre do Andrea Giardina, Bryan Ward-Perkins, Ramon Teja, e Claire Sotinel. O programa pode ser encontrado aqui.

Romanos e bárbaros

Está sendo realizada no Palazzo Grassi, em Veneza, a exibição Roma e i Barbari (de 26 de Janeiro a 20 de Julho de 2008). A exposição tem como objetivo discutir as relações entre Roma, o Império Romano, os romanos, e os “bárbaros”, do século I ao século IX d.C. O evento é patrocinado pelos governos da Itáia, França e Alemanha, além do arcebispado de Veneza, e graças a isso acabou assumindo proporções colossais: não só no número e valor dos artefatos reunidos, mas também por suas ambições intelectuais.

O objetivo não é apenas repetir antigas idéias de superioridade romana versus os bárbaros, mas sim questionar estas noções, repensando as próprias categorias de “romano” e “bárbaro”. Um dos objetos em exposição é a tábua recordando o discurso (em inglês, só uma parte, e em latim, inteiro) do imperador Cláudio no senado romano, em 48 A.D., no qual ele anuncia defende a idéia de incluir cidadãos nobres da Gália na ordem senatorial, uma idéia que não foi bem aceita pelos senadores romanos. Se um gaulês podia virar senador, isso significa que a própria noção de “romano” era fluida, em permanente estado de construção – uma vez que os grupos sociais (ou nacionais, ou étnicos) aos quais esta categoria se refere podem ser ampliados. Uma coisa interessante sobre este discurso é que não apenas o governo romano e os cidadãos gauleses julgaram importante preservá-lo, inscrevendo e preservando a referida placa de bronze, mas também Tácito, no livro 11 dos Anais, reproduz o texto do discurso (em inglês).

Um dos pontos altos da exposição é um busto do imperador Marco Aurélio, em ouro, encontrado em Avenches, antiga Aventicum (na Suíça). A cidade mantém um site muito simpático, com bons planos e fotografias (em francês). É irônico que uma obra tão preciosa tenha sido encontrada em uma área que tradicionalmente consideramos periférica no império romano – em Roma mesmo devem existir pouquíssimas obras assim (neste momento, não me lembro de nenhuma, se excluirmos objetos de uso pessoal e estátuas de bronze).

Eu vou amanhã para Veneza visitar a exposição, e tenho entrada reservada para o Domingo. De qualquer modo, vale à pena dar uma olhada no site da exposição, especialmente na introdução às obras.

Técnicas de fichamento, memória e o trabalho do historiador

Ontem eu bati um papo com o Filippo Coarelli, que vai apresentar um trabalho sobre a prefeitura urbana em Roma em uma conferência. Eu vou falar mais disso outro dia, mas uma coisa que me chamou a atenção é a maneira como ele trabalha. Escrevi sobre isso no Amiano Marcelino.

Prosopografia e epigrafia do senado romano tardo-antigo

Como parte do trabaho pro livro, resolvi tentar entender melhor quem são os senadores romanos da Antiguidade Tardia. No início do século IV a ordem senatorial passou por uma notável expansão: de aproximadamente 600 senadores que existiam na época de Diocleciano, quase todos vivendo em Roma ou na Itália, passou a ser composta de uns 4000 senadores, espalhados por todo o império. Ser um senador, nesse caso, significa ser membro da aristocracia senatorial – detentor do status de vir clarissimus. Existem diversos estudos sobre esse processo, assim como sobre o caráter deste grupo – historiadores importantes como A. Chastagnol, A. H. M. Jones, e mais recentemente P. Heather pubicaram estudos fundamentais sobre o assunto.

No entanto, uma coisa que o meu orientador de mestrado me pergunta até hoje é: mas quem são os senadores de Roma? Que tipo de aristocracia senatorial é essa? É uma aristocracia da cidade, da Itália, tem laços com as províncias? Pode-se chamá-la de uma aristocracia imperial? Responder a estas perguntas não é fácil. Eu resolvi, assim, partir do mais básico. Estou fazendo um levantamento de quem são os membros da elite política imperial que viveram, passaram um tempo, ocuparam funções públicas, em Roma, entre 284 e 535. Isso inclui uma grande diversidade de grupos sociais: membros da ordem senatorial como um todo, aqueles que eram membros do Senado (a instituição política), detentores do status de vir clarissimus que faziam carreira na corte, etc.

Para isso existem algumas fontes principais: a mais importante é a Prosopography of the Later Roman Empire, uma obra fundamental por reunir nomes e informação biográfica sobre todas as pessoas importantes atestadas na Antiguidade Tardia. Não chega a ser um dicionário biográfico, porque é menos elaborada, mas é mais útil, pois a informação é menos processada. A outra obra é o volume 6 do CIL, o corpus de inscrições latinas da cidade de Roma. Existem outros trabahos importantes, especialmente os da Silvia Orlandi, que estudou e publicou as inscrições do Coliseu – os assentos dos senadores tinham os seus nomes inscritos, como lugares marcados.

Esse trabalho é meio bizarro, porque às vezes me sinto fazendo um catálogo telefônico (sem os telefones). Por outro lado, alguns padrões interessantíssimos já podem ser vistos (ainda estou lidando com informação do século IV). Em primeiro ugar, a elite romana é muito mais internacional do que eu esperava: gente de todos os cantos ainda vinha para a cidade no final do século IV, e S. Agostinho é apenas um exemplo. Em segundo lugar, esta elite romana  é verdadeiramente imperial. Hoje encontrei com Enrico Zanini, que escava em Gortina na Grécia, e me sugeriu olhar as inscrições encontradas lá e publicadas pela Margherita Guarducci em 1929: várias delas homenageiam membros da elite romana, mas os laços entre estas pessoas e a cidade de Gortina ainda não estão claros para mim. O fato de que um Prefeito Urbano, ou seja, o mais importante funcionário na cidade de Roma, pudesse ser homenageado na Grécia, é digno de nota, e mostra a inserção desta elite nas demais cidades do império.

LEIR

Durante o encontro de História Antiga em Pelotas foi formalizada a criação do Laboratório de Estudos sobre o Império Romano, o Leir. O Laboratório reúne gente de diversas universidades brasileiras, da USP, UNESP, UFG, UFES, UFOP e UFRB, de professores a alunos. A idéia do laboratório é discutir o tema “Ordem Imperial e Fronteiras Internas”. O laboratório mantém um site aqui (lincado aí do lado também, na lista de links), com a identificação de seus membros, bibliografia brasileira sobre o Império Romano, uma útil lista de autores antigos, com notas biográficas e links para publicações de seus textos na internet (quando existe), etc.

Disclaimer: este blogueiro é um mebro do laboratório!

Morrendo em Roma

Lá no Rogue Classicism está a notícia de que arqueólogos encontraram em Ponte Galéria (um subúrbio pra lá de decadente de Roma) uma necrópole com 270 esqueletos masculinos. Os esqueletos apresentam diversos sinais de que o cemitério era usado principalmente por pessoas pobres, trabalhadores braçais – hérnia, problemas na espinha, inflamações nas juntas e tendões, etc. O cemitério estava em uso no século I d.C., e me pergunto se não pode estar relacionado à construção de Portus, o enorme porto de Roma iniciado pelo imperador Cláudio por volta de 50 d.C. Os responsáveis pelos trabalhos acham que se trata de trabalhadores nas minas de sal, o que faz muito sentido. O La Repubblica traz maiores informações, assim como fotos.

Esse achado é muito interessante, porque apesar de toda a publicidade que as catacumbas recebem, ainda se sabe muito pouco sobre as condições em que os mortos eram enterrados em Roma: onde, quantos, como, que tipo de pessoas, etc.

De volta ao reino dos vivos (ou dos mortos…)

Bom, depois de muito tempo inativo, o Antiguidades Romanas voltará a ser atualizado. Nesse mês de Maio participei de um evento em Pelotas, o 6o Encontro Nacional de História Antiga (que havia sido propagandeado anteriormente), e aproveitei para resolver questões burocráticas e pessoais no Brasil. Agora estou de volta a Roma, e em breve me mudarei para Heidelberg, para começar um pós-doutorado financiado pela fundação Alexander von Humboldt, por um ano, na Universidade de Heidelberg. Meu objetivo é analisar a evolução e declínio da prática de dedicar estátuas honoríficas nas cidades da Itália e da África do Norte durante a Antiguidade Tardia. Isso não me impedirá de continuar postando resenhas, comentários e notícias por aqui.