Arquivo do mês: março 2008

Amiano Marcelino

Amiano Marcelino é geralmente chamado o último grande historiador romano. Ele aparece assim no livro de M. Laistner, The Greater Roman Historians (tem na biblioteca da FFLCH-USP), ao lado de Salústio, Lívio e Tácito. Amiano era de Antióquia na Síria, e teve uma importante carreira no exército, lutando sob o comando do general Ursicino nos anos 350, e sob o comando do imperador Juliano durante a mal fadada campanha deste contra a Pérsia. O relato do cerco e tomada da cidade de Amida pelos Persas, em 359, é um dos grandes momentos da narrativa de Amiano, que foi testemunha ocular dos eventos (link em inglês e em latim). Eu não conheço as fontes literárias de Amiano, mas imagino o quanto de César pode ser encontrado nesta passagem, ao mesmo tempo pessoal e impessoal.

Amiano escreveu uma história do Império Romano em continuação à obra de Tácito, até aproximadamente 378. Os seus primeiros livros não sobreviveram, apenas os livros 14 a 31, que devem ser os melhores, pois oferecem uma narrativa detalhada dos eventos ocorridos durante sua vida. A história de Amiano é uma verdadeira res gestae, pois não se concentra em uma cidade e nem em um imperador, mas relata acontecimentos em diversas partes do império.

Amiano viajou extensivamente: esteve no Mar Negro, Egito, Síria, Pérsia, Ilíria, Ásia Menor,e  na Itália, tendo vivido em Roma durante o período de publicação de alguns dos livros de sua obra (ao menos: isso pode ser inferido a partir de uma carta de Libânio a um historiador antioqueno chamado Marcelino, Ep. 1063, datada de 392. Note que nem todos os historiadores concordam com a identificação deste Marcelino com o historiador do qual estamos tratando).

Amiano é uma fonte importantíssima para diversos aspectos do Baixo Império Romano, mas seus testemunhos não devem ser aceitos sem cuidado. Sua descrição do caos que marcava a vida em Roma revela ecos de escritores satíricos, suas análises etnográficas (como por exemplo dos hunos, aqui em inglês e aqui em latim) são baseadas em preconceitos, apesar de influentes, e por aí vai.

 Como era de se esperar, existe uma bibliografia enorme sobre Amiano. Na Wikipedia e no Ammianus Marcellinus Project, da Universidade de Groeningen, podem ser encontradas informações básicas e boas bibliografias. Meus livros preferidos são antigos, um do E. A. Thompson (nada a ver com o E. P. Thompson que estudou a classe operária), The Historical Work of Ammianus Marcellinus (que está fora de catálogo, mas que pode ser encontrado na FFLCH-USP) e o mais recente The Roman Empire of Ammianus, de John Matthews, recentemente republicado com uma nova introdução. A tradução de J. C. Rolfe, para a Loeb Classical Library, pode ser encontrada online aqui. O original latino, na Latin Library (mas eu não sei qual edição eles usam).

ps: este post tem um caráter pessoal – é devido ao fato de que cada vez mais pessoas têm visitado minha página pessoal, nomeada em homenagem a Amiano, procurando informações sobre este historiador.

A respeito do post abaixo sobre o Lupercal, eu já havia escrito alguma coisa aqui.

Geza Vermes

O Guardian publicou uma entrevista com Geza Vermes, cujo livro sobre a ressurreição foi publicado há pouco. Vermes é um dos estudiosos mais importantes do judaísmo e cristianismo antigos, autor de estudos e traduções dos manuscritos do Mar Morto, e de uma série de livros reveladores sobre o assim chamado Jesus Histórico. 

Lupercalia

Coarelli parte 2Coarelli parte 1

O ex-ministro da cultura e atual candidato a prefeito de Roma, Francesco Rutelli, voltou à carga, defendendo a identificação da famosa caverna da Lupercalia como sendo o ambiente com teto decorado em estuque e afrescos cuja descoberta foi anunciada no ano passado. Para quem não se lembra, eis aqui uma das reportagens sobre o assunto, com fotos. Essa identificação gerou enorme polêmica, especialmente porque seu maior defensor é o professor de arqueologia na universidade de Roma, Andrea Carandini. Carandini escreveu uma série de livros e artigos defendendo a idéia de que as lendas sobre a fundação da cidade possuem um núcleo de verdade, e que isso pode ser provado com a arqueologia. Seu trabalho não tem obtido grande repercussão fora da Itália, pois é baseado em uma lógica circular: as lendas me ajudam a interpretar os achados arqueológicos, e estes me ajudam a provar que as lendas são corretas.

 Bom, como todos sabem, a lenda diz que o fundador da cidade Rômulo e seu irmão Remo foram encontrados às margens do rio Tibre por uma loba, que os amamentou e protegeu até que eles foram encontrados por pastores que habitavam o Palatino. Durante esse período os bebês viveram em uma caverna, que mais tarde ficou conhecida como Lupercalia, e que se tornou um ponto sagrado na topografia da cidade. A situação é ainda mais complicada, porque Dionísio de Halicarnasso (cuja obra dá nome a este blog), afirma que a caverna era originalmente um local para o culto de Pan. Ou seja, estamos idando com mitos diferentes, nem sempre compatíveis, ligados a um mesmo lugar e a um mesmo festival, a Lupercalia, que ocorria todo dia 15 de Fevereiro.

Críticas à identificação do sítio (que pelas fotos parece muito mais um ninfeu, uma fonte monumental) como a Lupercalia podem ser encontradas no Rogue Classicism, mas a reação mais forte a essa “descoberta”, assim como à obra recente de Carandini, veio da pena de Filippo Coarelli, que publicou um artigo no La Repubblica no dia 15 de Fevereiro (o dia do festival!).  O artigo está no início deste post, e vale à pena ler. Não só para ver como um ego enorme ataca intelectualmente outro ego, mas também porque é um excelente exemplo de método topográfico, por um mestre na disciplina.