Leão Magno e a Roma cristã

Um dos meus objetivos nas próximas semanas é explorar a relação entre a aristocracia senatorial romana e a Igreja Cristã. Existem muitos estudos sobre estes dois grupos, ou temas, mas relativamente poucos sobre a relação entre ambos. O mais importante, do meu ponto de vista, é que existem enorme quantidade de material para mostrar que aquilo que os historiadores chamam de a formação da Roma cristã é um processo muito mais complexo do que se pensa normalmente.

Bom, digo isso porque estou neste momento lendo os sermões de Leão Magno, papa entre 440 e 461 (informações básicas na Catholic Encyclopedia; sua correspondência foi parcialmente traduzida para o inglês, e está disponível no site dos Nicene and Post-Nicene Fathers ). Eu venho querendo mexer com esse material há muito tempo, dada a importância de Leão: na metade do século V, Roma ainda é uma cidade importante, imperadores visitam e passam longas temoradas na cidade, senadores romanos ainda são muito influentes, bárbaros invadem a Itália algumas vezes e saqueiam Roma em 455, vários imperadores são assassinados e nomeados, enfim, um grande período. E de fato, os sermões oferecem um monte de informação interessante, inclusive sobre romanos que realizavam cultos ao deus Sol na basílica de São Pedro no dia de Natal (uma pérola de informação, no VII sermão sobre o nascimento do Senhor, parágrafo 4). Uma coisa que tem me chamado muito a atenção, no entanto, é que Leão é na verdade extremamente exclusivista: tudo o que ele diz e prega é voltado para a comunidade cristã, os cristãos devem evitar os pagãos, esmolas devem ser dadas para cristãos, etc. Isso é interessante porque uma idéia comum na historiografia sobre o período é que ao populus Romanus foi sobreposto a idéia de plebs Dei. O populus é uma categoria complicada, porque não envolvia toda a população de Roma, mas somente aqueles com cidadania – uma multidão de pobres, viúvas, doentes, imigrantes eram assim deixados de fora. A “plebe de Deus”, por outro lado, seria um grupo mais abrangente, incluindo os outrora marginalizados. O que Leão Magno mostra claramente que não é o caso, que na verdade existem dois modelos excludentes de sociedade. Esse é um tema que quero desenvolver no futuro, deve existir uma bibliografia mais ampla sobre o assunto.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s