Generosidade, Caridade e cristianismo, uma resenha

Acabei de ler o livro de Richard Finn, Almsgiving in the ater Roman Empire, de 2006 (descrito aqui, resenhado aqui na Bryn Mawr Review). O que me levou a ler este livro é a mesma questão que me me levou a ler os sermões de Leão Magno, discutidos no último post: entender como é que a aristocracia romana se apropriou de práticas cristãs para exprimir e reafirmar seu poder. O livro, é claro, não está preocupado com esta questão, mas oferece interessantes elementos para pensar a questão da caridade e da pobreza no mundo antigo.

A caridade não foi uma invenção do cristianismo, mas como vários historiadores já mostraram, assumiu uma nova face com os ensinamentos e a prática da Igreja. Em primeiro lugar, porque foi focalizada nos pobres; em segundo lugar, porque foi em larga medida controlada pelo clero, especialmente por bispos; em terceiro lugar, porque foi definida como uma prática espiritual, e não como um ato de civismo. Finn discute estas mudanças, pondo grande ênfase no papel dos bispos: eram eles quem controlavam boa parte das doações e eram eles que pregavam a importância da caridade em seus sermões, cartas e tratados teológicos.

O que é mais interessante é ver como nesse processo a própria definição de pobre e de doador foi reavaliada. “Pobres”, em textos clássicos, eram vistos de maneira essencialmente negativa, como ignóbeis, desprovidos de virtudes justamente por não terem nada (não podem fazer nada de bom). A definição que começou a circular no baixo império era a de pobres como aqueles que eram desprovidos de alguma coisa, os necessitados. O seu papel era fundamental na economia da salvação: doando, o romano agia em favor dos favorecidos de Cristo, assegurando assim sua redenção. O doador realiza assim um ato que, como observa Finn, pode ser comparado a uma oração (p.118). As melhores partes do livro são aquelas nas quais Finn analisa os textos cristãos apelando para seu contexto, levantando perguntas cruciais: quantas pessoas ouviam sermões? Quantas entendiam o que ouviam? O quanto do que era dito era novo?

O problema com o livro é que ele comete um “pecado” (já que o autor é dominicano!) muito comum entre historiadores da antriguidade, o de isolar seu objeto de estudo. Aqui não tem nada da “História Total”, o que é uma pena. A caridade cristã é um tema para excelentes estudos de história social, política, cultural, das religiões, etc. Finn deixou passar uma ótima oportunidade para quebrar barreiras normalmente observadas pelos historiadores: de que maneira a caridade transformou (se é que transformou) a sociedade do Baixo Império? De que forma as novas idéias de pobre e doador são ligadas a novas concepções de cidade e sociedade neste período? Qual a relação entre estas transformações e as transformações na economia e na vida urbana do período? Estas são questões centrais, que normalmente são deixadas de lado porque historiadores da Igreja não lidam com história social, e vice-versa. Por outro lado, essa crítica deve ser tomada com certo relativismo: Finn dá importantes passos nessa direção, e mostra que sabe que estas questões mais amplas existem. Eu recentemente ouvi dizer que o Peter Brown está escrevendo um livro justamente sobre estes problemas. Ele já tratou disso em dois outros livros, Power and Persuasion in Late Antiquity e mais recentemente em Poverty and Leadership in the Later Roman Empire – uma resenha do qual foi publicada na revista Phoinix, da UFRJ, em 2003. 

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