Calendários

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A peça mais interessante em exibição no Palazzo Massimo, em Roma, são os assim chamados Fasti Antiates, do qual já falei um pouco neste post. Os Fasti são listas, neste caso duas, uma com os nomes dos cônsules do século II a.C. (o último que aparece é de 84 a.C.), e o úncio exemplar de calendário pré-juliano que sobreviveu.

Os calendários romanos têm uma longa história, e existem vários livros sobre o assunto. Um que eu achao muito útil é o de Robert Hannah, Greek and Roman Calendars . Varrão, no De Lingua Latina (6.3), diz que o calendário romano foi criado pelo próprio fundador da cidade, Rômulo, e seguia as fases da Lua. O ano tinha 10 meses, começava em Março e terminava em Dezembro (com 304 dias!). Como se pode imaginar, o calendário logo parou de fazer sentido, não mais correspondendo às estações. Macróbio, na Saturnália (1.12.39), diz que “às vezes acontecia que o tempo frio chegava nos meses de verão, e consequentemente, o tempo quente aparecia no inverno.” A tradição diz que foi o Rei Numa Pomílio quem corrigiu essa situação, criando dois novos meses, Janeiro e Fevereiro, com um ano de 355 dias. Curiosamente, apesar de aparecer no início, Fevereiro era o último mês do ano, e o festival da Terminalia era celebrado nesta época.

A maioria dos historiadores duvida desta estória, é uma mera lenda, mas é interessante que ea explica algumas bizarrices: o fato de que os primeiros meses têm nomes de deuses e os últimos são numéricos (o décimo mês é Dezembro, que não é o último); o mês intercalar (ou seja, um mês com a função do nosso 29 de Fevereiro) vinha adicionado a cada 3 anos depois de Fevereiro.

Os Fastia Antiates contém, como você pode ver na imagem acima, contém uma coluna para cada mês (o que você vê aí é a reconstrução do grande Attilio Degrassi, o que sobrevive é uns 15% do que aparece na imagem), subdividida em várias colunas: uma na qual os dias são marcados de A a H, de acordo com os dias de mercado; uma na qual os dias são classificados de acordo com o ciclo lunar: as calendas (K = início do mês), as nonas (N = lua crescente) e os idos (I= lua cheia). O dia 26 de fevereiro, por exemplo, aparecia em documentos romanos como IIII kal. Mart. (4 dias antes das calendas de Março); uma outra coluna na qual os dias são classificados em Fasti (quando a vida segue normalmente), Nefasti (quando não podem ser realizados julgamentos, etc) e Comitialis (dias de assembléia). Alguns dias contém uma espécie de “dummies guide” para o calendário romano, informações escritas em vermelho. Por exemplo, Terminalia no dia 23 de Fevereiro, Roma Condita (a fundação da cidade) no dia 21 de Abril, e por aí vai. Meu preferido é o dia 15 de Junho, que tem as letras Q ST D F: quando stercum delatum, fas; ou seja, quando é permitido remover a sujeira (literalmente, o esterco). Trata-se do dia em que as Vestais limpavam sua casa e o templo de Vesta no Forum Romano. Quando a limpeza estava acabada o dia passava de Nefastus a Fastus.

 É interessante que este calendário logo perdeu seu valor prático. Os Fasti Praenestini (tem uma foto bem ruinzinha aqui), do início do imperio, são bem diferentes por duas razões: Júlio César já havia feito a grande reforma do calendário, instituindo o ano baseado no ciclo solar, com 365 dias; a outra razão é que neste já aparecem diversos festivais relacionados às vitórias e celebrações do novo regime político, especialmente do imperador e sua família.

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