Arquivo do mês: fevereiro 2008

Generosidade, Caridade e cristianismo, uma resenha

Acabei de ler o livro de Richard Finn, Almsgiving in the ater Roman Empire, de 2006 (descrito aqui, resenhado aqui na Bryn Mawr Review). O que me levou a ler este livro é a mesma questão que me me levou a ler os sermões de Leão Magno, discutidos no último post: entender como é que a aristocracia romana se apropriou de práticas cristãs para exprimir e reafirmar seu poder. O livro, é claro, não está preocupado com esta questão, mas oferece interessantes elementos para pensar a questão da caridade e da pobreza no mundo antigo.

A caridade não foi uma invenção do cristianismo, mas como vários historiadores já mostraram, assumiu uma nova face com os ensinamentos e a prática da Igreja. Em primeiro lugar, porque foi focalizada nos pobres; em segundo lugar, porque foi em larga medida controlada pelo clero, especialmente por bispos; em terceiro lugar, porque foi definida como uma prática espiritual, e não como um ato de civismo. Finn discute estas mudanças, pondo grande ênfase no papel dos bispos: eram eles quem controlavam boa parte das doações e eram eles que pregavam a importância da caridade em seus sermões, cartas e tratados teológicos.

O que é mais interessante é ver como nesse processo a própria definição de pobre e de doador foi reavaliada. “Pobres”, em textos clássicos, eram vistos de maneira essencialmente negativa, como ignóbeis, desprovidos de virtudes justamente por não terem nada (não podem fazer nada de bom). A definição que começou a circular no baixo império era a de pobres como aqueles que eram desprovidos de alguma coisa, os necessitados. O seu papel era fundamental na economia da salvação: doando, o romano agia em favor dos favorecidos de Cristo, assegurando assim sua redenção. O doador realiza assim um ato que, como observa Finn, pode ser comparado a uma oração (p.118). As melhores partes do livro são aquelas nas quais Finn analisa os textos cristãos apelando para seu contexto, levantando perguntas cruciais: quantas pessoas ouviam sermões? Quantas entendiam o que ouviam? O quanto do que era dito era novo?

O problema com o livro é que ele comete um “pecado” (já que o autor é dominicano!) muito comum entre historiadores da antriguidade, o de isolar seu objeto de estudo. Aqui não tem nada da “História Total”, o que é uma pena. A caridade cristã é um tema para excelentes estudos de história social, política, cultural, das religiões, etc. Finn deixou passar uma ótima oportunidade para quebrar barreiras normalmente observadas pelos historiadores: de que maneira a caridade transformou (se é que transformou) a sociedade do Baixo Império? De que forma as novas idéias de pobre e doador são ligadas a novas concepções de cidade e sociedade neste período? Qual a relação entre estas transformações e as transformações na economia e na vida urbana do período? Estas são questões centrais, que normalmente são deixadas de lado porque historiadores da Igreja não lidam com história social, e vice-versa. Por outro lado, essa crítica deve ser tomada com certo relativismo: Finn dá importantes passos nessa direção, e mostra que sabe que estas questões mais amplas existem. Eu recentemente ouvi dizer que o Peter Brown está escrevendo um livro justamente sobre estes problemas. Ele já tratou disso em dois outros livros, Power and Persuasion in Late Antiquity e mais recentemente em Poverty and Leadership in the Later Roman Empire – uma resenha do qual foi publicada na revista Phoinix, da UFRJ, em 2003. 

Leão Magno e a Roma cristã

Um dos meus objetivos nas próximas semanas é explorar a relação entre a aristocracia senatorial romana e a Igreja Cristã. Existem muitos estudos sobre estes dois grupos, ou temas, mas relativamente poucos sobre a relação entre ambos. O mais importante, do meu ponto de vista, é que existem enorme quantidade de material para mostrar que aquilo que os historiadores chamam de a formação da Roma cristã é um processo muito mais complexo do que se pensa normalmente.

Bom, digo isso porque estou neste momento lendo os sermões de Leão Magno, papa entre 440 e 461 (informações básicas na Catholic Encyclopedia; sua correspondência foi parcialmente traduzida para o inglês, e está disponível no site dos Nicene and Post-Nicene Fathers ). Eu venho querendo mexer com esse material há muito tempo, dada a importância de Leão: na metade do século V, Roma ainda é uma cidade importante, imperadores visitam e passam longas temoradas na cidade, senadores romanos ainda são muito influentes, bárbaros invadem a Itália algumas vezes e saqueiam Roma em 455, vários imperadores são assassinados e nomeados, enfim, um grande período. E de fato, os sermões oferecem um monte de informação interessante, inclusive sobre romanos que realizavam cultos ao deus Sol na basílica de São Pedro no dia de Natal (uma pérola de informação, no VII sermão sobre o nascimento do Senhor, parágrafo 4). Uma coisa que tem me chamado muito a atenção, no entanto, é que Leão é na verdade extremamente exclusivista: tudo o que ele diz e prega é voltado para a comunidade cristã, os cristãos devem evitar os pagãos, esmolas devem ser dadas para cristãos, etc. Isso é interessante porque uma idéia comum na historiografia sobre o período é que ao populus Romanus foi sobreposto a idéia de plebs Dei. O populus é uma categoria complicada, porque não envolvia toda a população de Roma, mas somente aqueles com cidadania – uma multidão de pobres, viúvas, doentes, imigrantes eram assim deixados de fora. A “plebe de Deus”, por outro lado, seria um grupo mais abrangente, incluindo os outrora marginalizados. O que Leão Magno mostra claramente que não é o caso, que na verdade existem dois modelos excludentes de sociedade. Esse é um tema que quero desenvolver no futuro, deve existir uma bibliografia mais ampla sobre o assunto.

Arte Antiga em Roma

2008 está sendo um ano excepcional para os amantes da arte antiga em Roma. Começou com a abertura das excavações debaixo do Palazzo Valentini: duas casas romanas do século II d.C., com espetacular decoração em mosaico e mármore. A exposição é ainda mais interessante porque através de efeitos de luz os mosaicos são reconstruídos durante a visita, enquanto animações digitais recriam a arquitetura das casas, provavelmente de senadores romanos. Maiores informações podem ser conseguidas no site da Província de Roma, que ocupa o palácio.

 No Palazzo Massimo alle Terme, a exposição Rosso Pompeiano apresenta uma das mais espetaculares coleções de afrescos antigos que eu já vi. O grosso das pinturas vem de Pompéia e Herculano, mas também de Oplontis e de Roma – o museum possui os afrescos da Vila de Lívia em Prima Porta e da Farnesina. Muitas das pinturas, como a da casa do bracelete dourado, permaneceram décadas longe dos visitantes e estudiosos, e essa é realmente uma oportunidade única. Além disso, o catálogo é excelente. Maiores informações podem ser encontradas aqui.

E finalmente, está prometida para Março a abertura da casa de Augusto no Palatino. O Sítio permaneceu fechado por muitos anos, mas finalmente as restaurações terminaram. Será possível visitá-la a partir do dia 2 de Março, provavelmente com reserva. Algumas imagens podem ser vistas aqui.

O que todas estas exibições têm em comum é serem concentradas na arte romana do início do Império (nem tanto no caso do Palazzo Valentini). O mais espetacular é ver como o gosto artístico das classes dominantes romanas passou por uma explosão: apesar de os temas já serem aqueles conhecidos de pintores e connoisseurs helenísticos, na época de Augusto a diversidade temática e de estilo é simplesmente sem par.

Epigraphic Saturday

O Current Epigraphy está publicando uma série de resumos dos papers apresentados no Epigraphic Saturday, organizado pela Joyce Reynolds em Cambridge na semana passada. Vale a pena dar uma olhada, tem desde o Werner Eck falando sobre a Revolta de Bar Kokhba (ele já havia apresentado este paper em Roma) até o Michael Crawford falando sobre língua e geografia na Itália romana.

Encontro Nacional de História Antiga

O Grupo de Trabalho de História Antiga da ANPUH e a Universidade Federal de Pelotas estão organizando o Encontro Nacional de História Antiga, entre os dias 5 e 9 de Maio. A página do evento (aqui) é bem legal. A programação ainda não está confirmada, mas inclui o grande epigrafista português José d’Encarnação. O tema do evento será Arte, Poder e Sexualidade – um pouco decepcionante, parece mais um enumerado de temas “na moda” do que um programa de discussões, mas enfim…

Calendários

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A peça mais interessante em exibição no Palazzo Massimo, em Roma, são os assim chamados Fasti Antiates, do qual já falei um pouco neste post. Os Fasti são listas, neste caso duas, uma com os nomes dos cônsules do século II a.C. (o último que aparece é de 84 a.C.), e o úncio exemplar de calendário pré-juliano que sobreviveu.

Os calendários romanos têm uma longa história, e existem vários livros sobre o assunto. Um que eu achao muito útil é o de Robert Hannah, Greek and Roman Calendars . Varrão, no De Lingua Latina (6.3), diz que o calendário romano foi criado pelo próprio fundador da cidade, Rômulo, e seguia as fases da Lua. O ano tinha 10 meses, começava em Março e terminava em Dezembro (com 304 dias!). Como se pode imaginar, o calendário logo parou de fazer sentido, não mais correspondendo às estações. Macróbio, na Saturnália (1.12.39), diz que “às vezes acontecia que o tempo frio chegava nos meses de verão, e consequentemente, o tempo quente aparecia no inverno.” A tradição diz que foi o Rei Numa Pomílio quem corrigiu essa situação, criando dois novos meses, Janeiro e Fevereiro, com um ano de 355 dias. Curiosamente, apesar de aparecer no início, Fevereiro era o último mês do ano, e o festival da Terminalia era celebrado nesta época.

A maioria dos historiadores duvida desta estória, é uma mera lenda, mas é interessante que ea explica algumas bizarrices: o fato de que os primeiros meses têm nomes de deuses e os últimos são numéricos (o décimo mês é Dezembro, que não é o último); o mês intercalar (ou seja, um mês com a função do nosso 29 de Fevereiro) vinha adicionado a cada 3 anos depois de Fevereiro.

Os Fastia Antiates contém, como você pode ver na imagem acima, contém uma coluna para cada mês (o que você vê aí é a reconstrução do grande Attilio Degrassi, o que sobrevive é uns 15% do que aparece na imagem), subdividida em várias colunas: uma na qual os dias são marcados de A a H, de acordo com os dias de mercado; uma na qual os dias são classificados de acordo com o ciclo lunar: as calendas (K = início do mês), as nonas (N = lua crescente) e os idos (I= lua cheia). O dia 26 de fevereiro, por exemplo, aparecia em documentos romanos como IIII kal. Mart. (4 dias antes das calendas de Março); uma outra coluna na qual os dias são classificados em Fasti (quando a vida segue normalmente), Nefasti (quando não podem ser realizados julgamentos, etc) e Comitialis (dias de assembléia). Alguns dias contém uma espécie de “dummies guide” para o calendário romano, informações escritas em vermelho. Por exemplo, Terminalia no dia 23 de Fevereiro, Roma Condita (a fundação da cidade) no dia 21 de Abril, e por aí vai. Meu preferido é o dia 15 de Junho, que tem as letras Q ST D F: quando stercum delatum, fas; ou seja, quando é permitido remover a sujeira (literalmente, o esterco). Trata-se do dia em que as Vestais limpavam sua casa e o templo de Vesta no Forum Romano. Quando a limpeza estava acabada o dia passava de Nefastus a Fastus.

 É interessante que este calendário logo perdeu seu valor prático. Os Fasti Praenestini (tem uma foto bem ruinzinha aqui), do início do imperio, são bem diferentes por duas razões: Júlio César já havia feito a grande reforma do calendário, instituindo o ano baseado no ciclo solar, com 365 dias; a outra razão é que neste já aparecem diversos festivais relacionados às vitórias e celebrações do novo regime político, especialmente do imperador e sua família.