Quando os gladiadores saem de férias

Estou escrevendo um artigo sobre festas e comemorações na Roma da Antiguidade Tardia. Meus últimos dias têm sido gastos lendo poemas épicos, leis, textos de autores cristãos, etc, mas o texto do qua mais gostei até agora foi o do Calendário de 354. Existem poucos calendários que sobrevivem da antiguidade, especialmente de Roma. Em Roma, que eu saiba, só tem um calendário de antes da reforma feita por Júlio César, os Fasti Antiates, atualmente no Museu Nazional Romano no Palazzo Massimo, perto da Termini. Da época do império existem uns poucos exemplares (todos foram publicados por Atilio Degrassi na série Inscriptiones Italiae, volume 13, fascículo 2, um calhamaço), muito incompletos.

 Mas no que se refere ao Baixo Império, no entanto, existem dois calendários, um compilado pelo gaulês Polêmio Sílvio, que compôs uma obra incluindo úm calendário anotado para o ano 449 (o Laterculus está aqui, mas esta edição não contém o calendário). O outro, ainda melhor, faz parte de um livro composto por Filócalo, que vivia em Roma, e dedicado a um certo Valentino, um cristão, em 354 (aqui, de novo sem o calendário, que pode ser visto com uma diagramação esquisita aqui).

É esse calendário que eu acho mais fascinante, porque apesar de composto por um cristão e dedicado a outro, ele recorda todos os festivais e jogos realizados em Roma em 354 d.C. São 177 dias! Mais interessante ainda é o fato de que o texto preserva informações sobre, por exemplo, dias de ludi (apresentações teatrais), circenses (corridas no circo) e munera (combates de gladiadores. Estes são os que me chamam mais a atenção, porque são apenas 10 dias no ano todo, todos eles em Dezembro.

Em 354 jogos gladiatoriais já estavam provavelmente declinando em importância, apesar de ainda serem populares: Santo Agostinho fala deles, reclamando, e existem diversas leis tentando regulá-los. O senador Símaco fala, em uma de suas cartas, de uma ocasião em que 29 bárbaros que ele havia comprado para os jogo organizados em honra ao seu filho em 401 se mataram (a carta 2.46). É fora de dúvida que o Coliseu não podia ficar 355 dias largado, sem ser usado. Mas é interessante que nenhuma fonte tardo-antiga explicite que outro uso podia ter o Anfiteatro naquele período.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s